Rumo ao VBAC domiciliar planejado

Silvana tem 33 anos e é casada há 12. Mãe da Ana Beatriz (4) e grávida de 16 semanas.

Sua primeira filha nasceu de uma desnecesárea.

Na hora em que o médico cortou minha barriga, Ana Beatriz subiu até debaixo das minhas costelas, se é uma reação comum não sei, mas a sensação que me dava era como se ela quisesse se esconder. Após algum tempo ouço a médica assistente dizer ao meu médico “Ela não quer sair” e todos ríamos. Na época achei muito engraçado, a minha filha não devia estar achando nenhum pouco engraçado. Ela se segurava no útero, depois no cordão umbilical e enfim conseguiram arrancá-la para fora de mim.

[…]

Ao contrário de muitas pessoas, tive uma excelente experiência com a cesárea. Tive uma recuperação muito rápida, indolor, mamãe dizia que nem parecia que tinha feito cirurgia, com 24h tive alta. Minha filha nasceu saudável e eu estava muito feliz. A felicidade da ignorância.

Grávida outra vez, surgiu o desejo de parir e ela está se preparando para um parto (VBAC) domiciliar planejado.

Para contar sobre sua decisão, criou um blog que estou acompanhando e torcendo para essa conquista de uma mulher empoderada.

Sem exagero, é violência (obstétrica)

Eu amo brincar de casinha: decorar, arrumar,  organizar, cuidar e limpar (aleatoriamente).

Muitos blogs me inspiram e tenho uma lista no meu navegador com o nome Blogs de Decor.

Consta lá o da blogueira Marcela Aureliano. Ela é uma ex-advogada que mergulhou fundo no mundo da criação.

Marcela é de Manaus e em maio nasceu seu primeiro filho, Lorenzo, vítima de um sistema despreparado (?).

Tudo planejado para o parto domiciliar, mas ela precisou ir para o hospital ainda em trabalho de parto.

A história, ela me permitiu compartilhar, pois acredita que as pessoas precisam saber que existe a violência obstétrica. “Temos que lutar contra isso”, reforça.

Olá, a história que vocês irão ler abaixo é apenas um desabafo de uma mãe que, por um tempo, sentiu-se envergonhada em compartilhar um momento tão íntimo… mas não só envergonhada, culpada também! Sim, é assim que o nosso sistema de saúde deixa centenas de mulheres todos os dias. Envergonhadas, culpadas, fragilizadas, com uma estranha sensação de que algo está errado. E assim ficamos durante anos, caladas e remoendo uma dor solitária.

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Faz exatamente 3 meses desde que tudo aconteceu… esse foi o prazo que dei a mim mesma para poder falar sobre o assunto. Precisava desse tempo para poder cuidar do meu filho com tranquilidade e paz. Precisava curar a minha alma, ajustar os pensamentos e focar todas as minhas forças em meu filho. Mas eu não quero apenas falar. Também quero agir! Buscar a justiça e espalhar para o mundo o que vem acontecendo com milhares de mulheres todos os dias. Começar a escrever esse relato será muito difícil, não sei se conseguirei em apenas um dia, mas preciso expor essa triste história para poder trabalhar esses sentimentos dentro de mim.

Com 39 semanas de gravidez tudo já estava pronto para o dia da chegada de Lorenzo. Banheira para o parto, malas prontas para o caso de alguma emergência e termos que acionar o plano B, que seria o hospital; comidinhas especiais na geladeira para eu me alimentar durante o trabalho de parto. Enfim, a casa estava preparada para um parto domiciliar planejado.

Era madrugada do dia 6 de maio quando comecei a sentir algumas coisas estranhas. Minha DPP  era para o dia 12 de maio, mas os sintomas davam a entender que Lorenzo não iria esperar muito para chegar. Acordava constantemente para ir ao banheiro e, por um momento achei que estivesse comido algo estragado. Até então não sentia contrações fortes e nem passava pela cabeça que eu estava entrando em trabalho de parto. Mas as 5:00h da manhã o famoso tampão finalmente resolveu aparecer. A partir desse momento as contrações começaram. Que felicidade senti. Finalmente iria conhecer meu filho! Estava tranquila, pois sabia que um trabalho de parto dura horas e, as vezes, dias.

Minha primeira reação foi enviar uma mensagem para a minha doula avisando o ocorrido. Logo depois acordei meu marido, que pulou da cama e  foi encher a banheira que estava na sala. Nos abraçamos e sorrimos que nem bobos, estávamos ansiosos para a chegada do nosso filho. Minha mãe, que estava dormindo, acordou com o barulho que fazíamos. Acendeu alguns incensos e preocupava-se com as músicas que iria colocar durante o parto.  Todos estavam se  preparando para a chegada de Lorenzo.

Ainda cheguei a dizer ao meu marido:

– Não precisa encher a banheira agora, vai demorar para as contrações aumentarem!

Mas ele não me escutava e enchia a banheira freneticamente. As 5:40h resolvi tomar um banho e me preparar para a chegada da minha doula e da equipe que viria depois. Havia contratado dois enfermeiros para acompanhar o parto. Mas as contrações aumentavam com uma velocidade enorme. Comecei a achar que o mantra que eu fazia todos os dias, para ter um parto rápido e tranquilo, iria se concretizar. Resumindo: não consegui tomar banho e nem marcar o tempo das contrações. As dores já estavam insuportáveis e a única coisa que eu queria era meu marido massageando a minha barriga sem parar.

Por volta das 6:40h minha doula chegou e logo viu que o meu trabalho de parto já estava bastante avançado. Uma contração atrás da outra, dores intensas. Onde está a equipe, pensei!  Por que não chegaram ainda? Todos estavam empenhados em entrar em contato com os enfermeiros. Minha mãe, meu marido e a doula tentando falar com eles e nada. Nenhum celular atendia. Nessa hora eu já não ouvia quase nada, estava entrando num mundo paralelo das dores do parto. Lá no fundo, como um eco, eu escutava minha mãe dizer:

– Que irresponsabilidade, no dia mais importante eles não atendem o celular!!!!

Não queria me estressar e mergulhei fundo nesse mundo que chamam de “Partolândia”. Infelizmente essa minha viagem foi interrompida, sabiamente, pela minha doula, que com uma voz doce e triste disse:

-Marcela, precisamos monitorar esse bebê. Seu trabalho de parto está muito avançado e temos que escutá-lo. Infelizmente não conseguimos entrar em contato com os enfermeiros. Sugiro irmos para um hospital para fazermos a escuta. Depois voltamos para casa.

Essa era a ideia, voltar para casa logo depois…

Fomos para o INSTITUTO DA MULHER, hospital que diz ser referência em parto humanizado em Manaus. Durante a gravidez fui fazer uma visita nesse hospital para saber como eram realizados os parnos normais lá. Recebi uma aula de humanização, até mostraram uma sala especial para os partos humanizados. Era uma sala reservada, com banheiro e alguns equipamentos. Fiquei mais tranquila quando soube disso tudo e, apesar de ter plano de saúde, achei que aquele hospital público estava bastante avançado no que diz respeito a humanização do parto. Por isso resolvi, que caso necessitássemos de um plano B, o hospital seria o INSTITUTO DA MULHER.

Sabe aquelas cenas de filme, onde a mulher chega no hospital gritando de dor, já parindo? Pronto, era eu! Colocaram-me numa cadeira de rodas e me encaminharam para fazer um exame. Lembro das pessoas me olhando e cochichando, algumas rindo e fazendo desdém do meu estado. Levantei da cadeira para entrar na sala e foi nesse momento que a bolsa estourou. Senti aquele líquido escorrer pelas minhas pernas e queria olhar a cor que ele tinha. Estava ótimo, sem presença de mecônio. Que maravilha, pensei!

– Querida, não temos o dia todo aqui. Deite na maca para fazer o exame! Disse a auxilar/enfermeira.

No meio de uma contração ainda tive forças para pedir um pouco de calma, que ela esperasse a contração terminar para eu subir a escadinha e deitar na maca.

– Não dá para esperar, suba logo, suba, vamos!!!!

– Moça, não consigo, tenha um pouco de paciência!

Minha doula, sempre gentil, tentava contornar aquela situação e me proteger de qualquer ameaça de estresse e desentendimentos que eu pudesse presenciar.

A voz daquela mulher já estava ecoando nos meus pensamentos. “Vamos logo, deite! Não dá para esperar, vamos!” E assim começou o primeiro, dentre os vários absurdos que irei relatar nessa triste história. A partolândia havia ficado em casa e desde o primeiro momento em que pisei naquele hospital, tive que lutar contra tratamentos desumanos, grosserias, despreparo de profissionais e, pela primeira vez, pude sentir o que quer dizer Violência Obstétrica.

-Cale a boca, eu vou esperar a contração passar e só assim irei subir essa escada!

Só consegui pronunciar essa frase. Finalmente silêncio, era tudo o que eu queria. Subi aqueles dois infinitos degraus, abri as penas na frente de umas 7 mulheres, algumas com seus maridos, a porta da sala aberta (isso era so um detalhe) e recebi o meu primeiro toque, dentre muitos que ainda viriam.

E lá estavam os meus 8cm de dilatação. Como pode? Só estou em trabalho de parto há apenas duas horas! Eu teria um parto rápido e tranquilo. Que bom! Mas eu não voltei para casa. Fui encaminhada para a sala de parto, uma espécie de produção em série, onde vários leitos minúsculos, divididos por uma cortina, separavam uma mãe da outra. Não lembro quantas macas tinham naquela sala grande e gelada. Eram muitos e num deles eu fiquei. Nesse momento estavam comigo meu marido, minha mãe e minha doula. Queria ir para casa, queria o meu ninho, as minhas coisas, a minha banheira que comprei com tanto carinho… me sentia desprotegida.

Colocaram uma bata em mim e pediram para eu ficar deitada na maca. Impossível! Naquele momento nem sentar eu conseguia, deitar era impossível. Só se fosse de quatro. Mas de quatro não era permitido. Saí da maca e me agachei. Meu marido me ajudava nos agachamentos. Nesse momento eu já não raciocinava direito, as dores eram insuportáveis e eu confiava no meu marido para me segurar nos momentos que precisava. Os agachamentos eram feitos na frente de todos os transeuntes do hospital. Profissionais e não profissionais. Quem passasse por ali viria uma mulher semi nua, dilatada e quase em transe. E lá estava eu e meu marido, andando no meio das pessoas enquanto eu me agachava entre uma contração e outra. Procurava me concentrar, mas era quase impossível com tantos olhares observadores.

O segundo toque aconteceu logo quando cheguei nessa sala. Não lembro quem fez, se homem ou se mulher. Apenas lembro de algumas pessoas na minha frente (talvez fossem estudantes). Abriram a cortina, que me separava das outras mulheres e novamente outro toque. 8cm! Claro que seriam 8cm, eu tinha acabado de receber um toque dolorido assim que cheguei, por que receber outro logo em seguida? Nunca ouvi falar em dilatação por minuto.

Várias outras mulheres estavam em trabalho de parto quando cheguei, podia ouvir os seus gritos. Tentei me concentrar apenas nos meus, mas era difícil.  Minha doula perguntou se eu queria ir para o chuveiro. Claro!!!! Uma água quente deve amenizar um pouco as dores e essa é uma grande verdade. Não lembro como era o banheiro, apesar de todo esse desconforto eu ainda tentava me concentrar nas dores do meu parto. Lembro apenas dos azulejos brancos e que a água do chuveiro respingava por todos os lados, menos em mim. Algumas gotas caiam na minha lombar, o que era maravilhoso.

Queria ficar naquele chuveiro até ter o meu filho. No banheiro não tinha ninguém, havia silêncio e aquela água quente, por mínima que fosse, me acalmava. Esse foi o único momento só meu. Olhava para a minha doula e chorava, queria carinho, palavras de incentivo, queria que as dores passassem. “Você vai conseguir Marcela, dói, dói muito, mas são essas dores que trarão o seu filho. Concentre-se nela e tudo vai fluir.” Infelizmente as palavras da minha doula eram interrompidas constantemente por uma enfermeira que abria a porta do banheiro para dizer que no chuveiro só poderia ficar 5min. Chorei ainda mais porque eu não queria deixar a água, precisava dela, ela cobria o meu corpo e me anestesiava, me dava forças. Ali eu estava segura.

– Quem mandou você molhar o cabelo!? Disse, aos gritos, a enfermeira, que pela milésima vez abria a porta do banheiro e me expunha nua e agachada para todo o hospital ver.

Era proibido molhar o cabelo. Por que? Eu não sei até hoje. Talvez porque não pudesse entrar na sala de cirurgia de cabelo molhado.

– Mas é impossível não molhar o cabelo com esse chuveiro, a água vai para todos os lados, ele tá entupido!

Não sei de onde a minha doula tirava tanta calma para responder a tantas grosserias que aqueles “profissionais” diziam. “Marcela, não entre em conflito com ninguém do hospital.” Essa era a frase que ela mais dizia. Qualquer uma daquelas pessoas poderia ser a que fosse fazer o meu parto. Por isso tínhamos que ter bastante cuidado com o que fazíamos e dizíamos. Até nisso deveríamos pensar e ser cautelosos.

Aos pratos saí do chuveiro, parecia uma criança, cujo doce haviam me tirado. Apesar de tudo, aqueles 5min foram maravilhosos. Queria voltar, mas eu já havia ultrapassado o tempo permitido. Para piorar meu cabelo estava molhado. Algo extremamente proibido naquele lugar.Voltei para o meu espaço privado de 4m². O lençol que haviam colocado na maca já estava todo sujo de sangue, fezes, vômito e todos os outros líquidos que havia saído de dentro de mim. Lembro que minha mãe pediu para trocar, mas não era possível. Eu me debruçava nesse lençol e segurava a calça do meu marido enquanto mordia o tecido. Virei um bicho revoltado com aquela situação e já totalmente desconcentrada do meu parto.

Logo após sair do chuveiro expulsaram a minha doula da sala. Disseram que o paciente só poderia ter um acompanhante e eu tive que escolher entre ela e o meu marido. Como não ter o meu marido no momento mais importante das nossas vidas? Como ficar sem a presença da minha doula, da única pessoa que estava me orientando, me dando forças psicológicas e me protegendo daquele local? Chorei ainda mais com a ausência da minha doula. Esse foi um dos momentos mais difíceis, o da escolha impossível…

O terceiro toque aconteceu logo em seguida. Dessa vez um outro médico. Desse eu me lembro, pois assim que ele abriu a cortina e perguntou a minha idade, proferiu a seguinte frase:

– Você sabe que será muito difícil o seu parto não é? Você tem mais de 30 anos e mulheres com mais de 30 anos não devem ter parto normal. Só cesárea! Não era nem para você estar aqui. Além do mais o bebê ainda está muito alto, vai demorar esse parto. Você está fazendo tudo errado, tem que ficar deitada, de barriga para cima e de perna aberta. Você tá empurrando seu bebê para dentro.”

E lá foi mais um toque e algumas palavras de incentivo daquele “profissional.”

Ele escutou os batimentos cardíacos do bebê e tudo estava bem.

Já eram mais de 13h da tarde e eu ainda não havia comigo nada desde o dia anterior. Estava exausta, fraca, cansada e com muita fome.  Minha última refeição tinha sido no final da tarde. Pedi comida, que me foi negada. Pedi um suco e também foi negado. Minha mãe, que era médica, pôde ficar na sala e procurava dentro da bolsa dela algum bombom que pudesse me dar. Por sorte ela tinha uns sachês de mel. Lembro apenas do meu marido colocando o mel na minha boca e dizendo para engolir.

Colocaram soro em mim, mas a agulha saia constantemente do lugar devido aos meus movimentos. Como se já não bastasse as dores do parto, ainda tinha uma agulha furando o meu braço o tempo inteiro. O sangue começou a escorrer do meu braço e eu fazia força para arrancar o soro. Desisti de pedir para tirar o soro e me conformei com aquela agulha rasgando meu braço.

– O maravilhoso médico que disse que eu não poderia ter parto normal devido a minha idade, 32 anos, foi o mesmo que quis aplicar ocitocina em mim.

-NÃO QUERO!!! Não quero ocitocina, não há necessidade. Minhas contrações estão muito intensas, uma atrás da outra. Em duas horas cheguei há 8cm de dilatação. Já estava com 9cm!!!!

– Assim fica difícil, tudo que eu peço para você fazer, não faz. Você não vai ter parto normal assim, disse o médico revoltado!

Uma segunda escuta foi feita e dessa vez foi mais demorada. Os batimentos estavam bem, mas logo após uma contração houve uma baixa e o médico disse que meu bebê estava em sofrimento. Mas eu vi que os batimentos haviam se regularizado. Como saber? Como confiar? O desespero de que alguma coisa pudesse acontecer com meu filho desviou toda a minha concentração. A fome, o cansaço, o desconforto, a exposição, os toques, tudo isso fazia parte do momento mais importante da minha vida. Foram 9 meses estudando e me preparando para um parto humanizado e saudável. Foram 9 meses participando de rodas de gestantes, lendo livros, fazendo exercícios respiratórios e mais uma infinidade de outras coisas que iriam me ajudar no dia tão esperado. Como um pesadelo eu estava semi nua, com pessoas me observando de todos os lados, com fome, frio e sede, sentindo as dores do parto. Naquele momento eu só sentia as dores, não sentia o que elas representavam, o bem que elas me faziam. Que inversão de pensamentos.

Às 14h meu corpo já não obedecia uma mente cansada e revoltada. As lembranças a partir desse momento são como flashes que vão e vem na minha mente. Comecei a ter delírios… e a sentir que eu iria desmaiar. As contrações já não vinham apenas com dor, mas com uma vontade involuntária de fazer força. Já não conseguia mais ficar agachada, pois eu estava muito fraca. Resolvi ficar de joelhos e fazer dos pés da maca apoio para a minha cabeça. Estava exausta… um sentimento terrível de solidão tomou conta de mim… queria a minha doula, a minha força externa. Fechava os olhos e não conseguia acreditar no estado em que eu me encontrava. Eu estava vivendo um pesadelo no dia mais feliz da minha vida. Sentia-me humilhada, envergonhada, triste e, o pior de tudo, com uma sensação terrível de culpa. É assim que eles nos fazem sentir, culpadas! Como se nós, mulheres, fóssemos fracas e incapazes por natureza. Tiram da gente todas as nossas possibilidades de ter um parto tranquilo e concentrado, tiram a nossa auto estima, a nossa crença em nós mesmas. Havia chegado no meu limite…E foi ali, no chão do hospital, de joelhos, que pedi uma cesárea.  Queria apenas que tudo aquilo terminasse…

A cirurgia já tinha sido indicada antes mesmo do meu marido ir falar com o médico.

Fiquei por cerca de 10 minutos deitada na maca no corredor do hospital a espera da liberação da sala de cirurgia. Minha mãe, que é médica, pediu para acompanhar a cirurgia e disseram que apenas uma pessoa poderia entrar, neste caso o meu marido foi acompanhar. Pelo menos era o que achávamos que aconteceria.

Durante os 9 meses de gestação me preparei psicologicamente para o caso de uma cesárea. Mas uma cesárea com indicações contundentes e necessárias. Lá estava eu, na sala de cirurgia… Há algumas horas atrás meu parto tão sonhado estava fluindo com tranquilidade no aconchego do meu lar. Jamais eu poderia imaginar passar por tudo o que passei. Infelizmente os absurdos dessa triste e real história não terminam por aqui, uma segunda etapa começava.

Assim que entrei na sala de cirurgia, com dilatação total, pediram para eu ficar sentada e receber a anestesia peridural. As contrações estavam muito fortes e pedi para aplicar quando passasse a dor. Fiquei sentada e, mais uma contração, a mais forte que havia sentido, veio assim que sentei. Na procura de algo para me agarrar e de um consolo que fizesse amenizar as dores, involuntariamente abracei o médico que estava na minha frente. Abracei com toda a minha força, disse que estava doendo, chorei porque não queria estar na sala de cirurgia. O médico foi pego de surpresa e o abraço não foi recíproco. De braços abertos ele ficou e logo em seguida vieram as risadas. Todos riram de mim, como se aquele meu pedido desesperado de consolo fosse motivo de piada. Logo em seguida veio a frase que nunca mais irei esquecer. “Calma, senhora, ele é bonito, mas não é pra tanto!” Risos e mais risos…

Por alguns longos segundos desejei morrer, esqueci que iria ter um filho, queria apenas desaparecer e acordar daquele pesadelo que se prolongava por tanto tempo. Queria a minha doula, o meu marido, a minha mãe. Mas aonde estava o meu marido? Só depois que deitei, após terem aplicado a anestesia, foi que percebi que meu marido não estava na sala. “Aonde está o meu marido¿” por diversas vezes eu perguntei aonde ele estava e ninguém respondia. Até que uma enfermeira disse que ali não podia entrar mais ninguém e que não existia esse “negócio” de acompanhante. Na sala de parto tiraram a minha doula e na sala de cirurgia o meu marido. Aos poucos aquele hospital foi me tirando tudo o que eu tinha. Tiraram minha tranquilidade, minha harmonia, minha auto estima, minha coragem, minha intimidade e, finalmente a minha família. Estava só, no momento que seria o mais feliz da minha vida. E foi um dia feliz, pois apesar de tudo, saber que meu filho iria nascer e escutar o seu choro fizeram o meu coração pular pela boca. Ao escutar o seu chorinho senti o meu sangue ferver, a respiração tomar conta de mim e a minha mente explodir de adrenalina. Eu estava anestesiada de amor e alegria. Era a voz do meu filho, meu filho tão esperado e amado. Queria sentir a sua pele, abraçar, beijar, lamber minha cria. Queria olhar para ele e dar as boas vindas a essa terra que o estava acolhendo.

Como que num relance a médica levantou o meu filho e o levou para outro lugar. Não me deixaram ver, tocar, ouvir, tampouco sentir o coração do meu filho bater forte. Arrancaram ele de mim e o levaram para bem longe. “Onde está o meu filho, onde está o meu filho????” Aos prantos eu suplicava por ele, queria vê-lo! Pediram para eu calar a boca, pois ele estava bem, que era procedimento do hospital e que logo mais ele estaria comigo, limpo e vestido. Ainda chorando, pedi, pela última vez, para ver meu filho. Irritada, uma pessoa da sala pronuncia a seguinte frase: “Pra quê você quer ver o seu filho se você não pode nem se mexer?”

E foi assim que meu filho chegou ao mundo, mais uma vítima de uma violência velada, uma violência silenciosa, que acontece todos os dias com centenas e milhares de mulheres nesse mundo. Logo comigo, pensei! Por que isso foi acontecer comigo? Eu que sempre fui tão engajada na militância do parto humanizado, eu que me preparei, antes mesmo de engravidar, em como proporcionar um parto tranquilo e humano. Li livros, estudei, convenci a minha família, participei de passeatas, preparei a minha casa… Tudo em prol dessa mudança que acredito que vai acontecer. Logo eu fui mais uma vítima. Arrancaram o meu sonho, o meu momento o nosso momento. Meu, do meu filho e do meu marido. Os três separados pelo sistema falho e ignorante. Cada um no seu mundo, na sua sala, nos seus pensamentos… Cada um com a sua dor.

Ainda fui obrigada a passar 3 dias e três noites nesse terrível hospital, cujo relato desses dias de horror deixo para um próximo texto, que farei questão de escrever com todos os detalhes. A verdade é que, em meio as baratas e as grosserias de vários enfermeiros, que fazem parte desse hospital, passei momentos difíceis e, quase que fugida, deixei o hospital numa sexta-feira de lua crescente sem ter, ao menos, um registro fotográfico do dia em que meu filho nasceu. Triste contradição para quem é casada com um fotógrafo profissional.

Ao chegar em casa pude tomar um banho decente. Ainda tinha resto de sangue do meu trabalho de parto pelas minhas pernas. Os meus pensamentos rondavam a minha mente. Revolta, indignação, tristeza… muitos sentimentos ruins juntos. Esfregava o meu corpo com toda força, numa tentativa em vão de limpar minha mente daquelas lembranças. Uma sensação estranha de que eu tinha sido estuprada começou a tomar conta de mim. Será que é assim que uma mulher estuprada se sente? Haviam tirado de mim o momento mais lindo e sublime que uma mulher pode ter. Me maltrataram, me chamaram de incapaz e ainda pediram para eu calar a boca. Eu estava sendo violentada e tinha que ficar calada. Tive medo!

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Relato de parto – “Assenti com a cabeça, neguei com o coração.”

A Mel Naves, do blog Mamãe Duas Vezes, é psicóloga e tem 27 anos.

Quando li seu relato do parto (VBAC), entrei em contato para pedir autorização e assim poder compartilhar aqui.

Desde que mergulhei nesse mar de informações, não me canso de ler, ouvir e assistir tudo sobre a partolândia.

Acredito que muitas outras Carolinas, Anas e Marias estejam assim como eu: apaixonada pela causa.

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Mel, esperando Isabela e Valentina, respectivamente.

Pensei muito em escrever ou não o meu relato de parto, porque ô coisa que vira polêmica falar de parto!  Nem discussão política possui debates tão fervorosos!! Acho que ambos os lados (isso nem deveria existir!! Lados?! Estamos nós mães em uma disputa?) acabam exagerando nas suas convicções.

Começo dizendo que verdadeiramente respeito qualquer via de parto, seja normal, natural, humanizado ou cesária. Não acho que isso determine o valor de uma mãe, mas acredito que não há escolha sem conhecimento. Por isso gestante, se informe, seja crítica e não aceite verdades em um potinho.

Impossível falar do meu parto natural sem falar um pouco do meu parto cesária, o qual trouxe ao mundo aquela que mudou minha vida: Valentina! Valentina nasceu no dia 29 de dezembro de 2011 com quase 38 semanas. Eu sempre quis parto normal e achava que se eu quisesse, no fim daria tudo certo! Eu acha que deveria me preparar para a dor, e que o resto se ajeitava. Eu não sabia que no Brasil é preciso lutar por um parto normal.
Eu comecei a ter contrações espaçadas no dia 24 dezembro e desde então ia ao médico todas as manhãs. Nenhum avanço. No dia 29 de dezembro, perdi o tampão mucoso e na consulta obstetra fez uma declaração que me deixou sem palavras: “-Precisamos fazer a cesária, você já está há muito tempo com contrações. Não tem porque deixar você sofrendo tanto tempo!” Eu sem piscar respondi: “-Eu aguento, não tem importância!” Ele contra-argumentou dizendo que na verdade, não fazer a cesária poderia colocar a Valentina em risco. O que eu fiz?! Sem pestanejar disse que tudo bem, que faríamos então a cesária. Eu, com os nervos em frangalhos, não raciocinei que era dia 29 de dezembro. Não tinha o conhecimento de que na verdade eu estava em pródromos e que a Valentina NÃO poderia estar em risco. Fiz o que a maioria das gestantes faria, aceitei uma verdade pronta. E foi assim que minha primogênita veio ao mundo! Não fiquei nem por um segundo triste ou enganada. Sabe por quê? Porque eu achava que a cesária tinha sido necessária, que tinha sido o melhor para ela. Às vezes, a ignorância tem esse benefício.

Grávida da Isabela, assisti o documentário O Renascimento do Parto e tive um clique. Percebi como tinha sido ludibriada às custas da minha ignorância. Decidi que dessa vez quem decidiria a forma que minha filha nasceria seria eu, a mãe dela. Eu queria meu parto normal e conseguiria. Nunca julguei quem decide ter um parto cesária, mas essa não tinha sido a minha decisão e me fizeram pensar que era minha única opção. Percebe a diferença? Me senti lesada, alguém me tirou o direito de realizar um sonho. Sonho é sonho! Ninguém pode desmerecer o sonho de alguém e o meu sonho era ter um parto normal. Li muito, devorei todos os relatos que encontrava sobre VBAC (Via baixa após cesárea ou parto normal após cesárea)

No dia 20 de abril de 2013 comecei a ter contrações. Elas foram recebidas com muito alegria! Isabela estava chegando! As contrações vinham durante toda a noite, ficavam ritmadas e com o nascer do dia iam embora. Eu não estava com nenhuma pressa, mas era bem exaustivo. Comecei a ter consultas diárias, um aviso de que a Isabela era muito grande, dilatação de 1cm sem evolução. No dia 5 de maio de 2014, com 38 semanas e 3 dias perdi o tampão mucoso e fui a consulta diária. Qual foi minha surpresa quando ouvi que estava com contrações há muito tempo, que a Isabela era muito grande e que no dia seguinte ela nasceria de qualquer jeito. Assenti com a cabeça, neguei com o coração. Não, dessa vez ninguém decidiria por mim. Li muito, sabia que um bebê grande e período de pródromo prolongado não era indicação para cesária. Ainda assim, chorei, refleti, parecia que a história se repetiria mais uma vez. Mas dessa vez, arrumei forças para negar aquelaverdade e a noite, no dia que seria a minha cesária fui ao pronto socorro para ser atendida por uma médica que eu sabia que era favorável ao parto normal.

A consulta foi ótima! Esse anjo que me atendeu me tranquilizou, analisou os batimentos cardíacos, contou as contrações. 5 contrações por minuto, 3cm de dilatação. “-Vá pra casa, descanse, está tudo bem com a sua filha, agora é só ter tranquilidade para esperar!” Fui pra casa, despedi do barrigão, entrei debaixo do chuveiro e me preparei emocionalmente pra tudo que viria. Minha vida iria mudar, eu seria mãe de duas!

Contrações com dores suportáveis, 45 segundos. Pensei, ‘é essa a dor do parto?’ Tranquilo! Eu posso aguentar. Noite inteira assim. Chá de canela para ajudar, banho para progredir. Dormir não consegui. As dores eram muito tranquilas, mas o que me incomodava muito era um enjoo persistente que me fez pensar que estava com alguma intoxicação alimentar. Não era, meu corpo estava se preparando! O que eu conseguia era beber muita água de coco, comer frutas com sal (goiaba e manga) e foi isso que me manteve em pé. Eu ainda não estava certa de que estava mesmo em trabalho de parto ativo, pensava que como nos dias anteriores as contrações poderiam parar a qualquer momento. Mas elas não pararam. Foram gradualmente ficando mais fortes e mais demoradas. Às 11 horas uma amiga passou em casa, levou uma bola de pilates e me ensinou uns movimentos que ajudavam muito na dor. Ela foi embora e fiquei com musiquinhas calmas, quarto escuro, massagem do marido; Valentina estava na escola. As contrações vinham, segurava a mão dele, abraçava, sentia o seu cheiro (eita homem cheiroso!). E isso ajudava muito!

Ficar parada nas contrações estava ficando muito difícil. Eu começava a andar, fechar os olhos. Já estavam de 3 em 3 minutos. Eu não quis ir para o hospital porque sabia que o risco de uma intervenção colocaria em risco meu sonhado parto. Ocitocina sintética não era uma opção para mim porque aquele sorinho aumenta muito as chances de uma ruptura uterina. Quando foi por volta de 14hrs, avisei ao marido que era melhor ir para o hospital, porque eu iria ficar parada dentro do carro e agora as dores estavam ficando mais fortes. A permanência no carro foi realmente muito difícil. Você se sente enjaulada na dor, não tem como se libertar sentada em um carro. Imaginei como as mulheres em trabalho de parto sentadas em uma cadeira de roda com o bendito soro se sentiam.

Chegamos no hospital, eu já sentindo muita dor. Hospital público lotado (mais essa! Meu plano por uma incompetência da prestadora não cobriu o parto). “Só vai ficar se estiver nascendo“, falou a médica com cara de poucos amigos. Me levaram para uma sala pequenasozinha com uma maca para fazer o exame de toque. Não permitiram (ilegalmente) que meu marido entrasse comigo. Alegaram que somente se a Isabela estivesse nascendo é que ele poderia entrar. 8cm, “é, tá nascendo” disse a obstetra de plantão, já em um tom mais gentil. “Olha, eu vou estourar a sua bolsa pra ir mais rápido”. Minha bolsa ainda não tinha estourado e talvez nem estourasse neh?! Mas já com dor, deixei, não tive força psicológica sabe? Sabia que era desnecessário! Mas é mesmo muito difícil dizer não em um momento como esse. A bolsa precisa ser estourada durante a contração, você deitada. Sim, isso dói! Dói muito!!! Algo parecido com uma agulha enquanto você sente uma dor que a essa altura estava realmente forte. Todos os meus impulsos de luta foram ativados naquele momento e eu tive que pedi muito a Deus pra não me deixar dar um chute na cabeça da obstetra chega pra lá na obstetra. Eu não sou violenta, mas essa foi minha vontade naquele momento. Dor desnecessária! Pedi por favor para que meu marido entrasse, tudo era tão mais fácil com ele!

Mas ele não entrava! E eu naquela salinha igual um bicho preso. Em tese ainda teriam mais 2 horas pela frente. Eu sozinha, já não tinha como mais fugir da dor, nenhuma posição era confortável. Aquela era realmente a dor do parto! Elas vinham de 2 em 2 minutos e demorava mais de 1 minuto. Uma dica para quem não sabe se está em trabalho de parto ativo: se você tem dúvidas, você não está! A dor da contração é algo memorável! No início é como uma cólica mais forte, mas quando estava com 8cm de dilatação foi uma dor que eu não saberia descrever!

Enfim me levaram para um quarto maior. Ligaram um chuveiro com uma água fria (é, fria mesmo) e me deram uma cadeira de roda para sentar no chuveiro! Tentei, mas não deu não! Não era uma banqueta de parto, era uma cadeira de rodas! Ficar sentada em uma cadeira de rodas era fora de cogitação naquele momento! Senti uma pressão forte, “Ela tá nascendo!”Veio uma enfermeira sem educação e me respondeu com grosseria, dizendo que eu havia acabado de chegar e que ela não estava nascendo não. Graça a Deus meu marido então chegou, durou aproximadamente 40 minutos para ele entrar. Pedi pra ele me ajudar, falei“essas mulheres que querem parto normal são todas loucas“, falei que queria fazer cesária, falei que queria anestesia. Essa é a hora da covardia, já tinha lido nos relatos que quando o bebê está quase nascendo as mulheres querem desistir. Eu nem me dei conta disso, eu só queria dormir, estava cansada daquela dor. Pensei que ainda iria sentir mais uma hora daquilo. Senti de novo essa pressão, falei pra ele que ela estava nascendo. Veio outra enfermeira, segurei a mão dela e falei com toda comoção que podia e disse que queria a anestesia AGORA. Ela disse que eu tinha que deitar na cama para medir a pressão, nossa, mas que revolta que eu fiquei. Não lembro exatamente as palavras, mas disse que eles não estavam entendendo, que minha filha estava nascendo e que não era hora de medir pressão coisa nenhuma! Me fizeram deitar, nem sei como! Sei que quando deitei veio uma vontade de fazer força incontrolável, isso é o que chamam de “puxo”.

Nesse puxo a Isabela veio e voltou! Vieram várias obstetras, porque a gente acaba fazendo aquele urro de mulher sabe? Uma coisa meio animal mesmo!! Um corre corre danado, obstetra olha e fala, “tá coroando”! “Vai nascer aqui mesmo!” De repente passou a contração! A obstetra disse, vamos logo para o centro cirúrgico, doida pra me fazer uma episiotomia! E já vieram com uma cadeira de roda! Falei que não, que eu ia a pé!! (A pé?! Oi?! Hauhauh). Perguntei se era longe, falaram que não, que era só atravessar o corredor. E fomos, eu, meu marido e mais uma renca de gente! Acabamos de passar pela porta do centro cirúrgico e senti a contração chegando! Ela disse, “deita na maca”! Eu, só balancei com a cabeça e falei que não dava! E veio o puxo! Ela disse, faz força! Eu nem escutava nada, seguia meu corpo. Seguia o que a natureza me dizia e ela sabe mesmo o que fazer! Eu em pé, abaixei um pouco e da forma mais primitiva, saiu aquele som que nem se eu quisesse conseguiria reproduzir. Uma das obstetras deitou no chão e foi então que com mais dois puxos a Isabela nasceu! No primeiro sua cabecinha e no segundo seu corpinho. No dia 7 de maio de 2014, 3815kg, contrariando todas a maioria das indicações (falsas) médicas: de que ela era muito grande, de que eu era muito pequena, de que estava com contração a muito tempo, de que eu já tinha uma cesária, de que a cesária era próxima demais. Nada disso impediu que a natureza trabalhasse a meu favor! Isabela nasceu quando quis e eu lutei por isso. Me renovei, renasci! Senti que eu era forte e que eu podia qualquer coisa! Eu tinha conseguido meu parto natural, sem anestesia, sem episio e em um sistema público de saúde. Minha tristeza foi que alegaram que ela estava com a frequência respiratória alterada (óbvio! Parto normal é assim!) e ela ficou durante uma hora sendo observada do meu lado. Mas eu queria amamentar, queria cheirar, queria tocar nela! Mas acho que do jeito que eu queria só um parto domiciliar. Quem sabe em uma próxima vez?

Meu marido ficou tão emocionado! Ele sentiu a força da vida! Virou ativista de parto normal!! Eu senti o nascimento da Isabela como um divisor de águas. Minhas tias, todas com parto cesária, queriam ouvir meu relato de parto. Minha mãe, minha irmã, nenhuma delas sabiam como era um parto normal!  Eu realizei meu sonho.  O parto não era só pela Isabela, mas por mim também! Eu queria viver isso! Eu não queria passar por essa vida sem essa vivência! E eu consegui!! Fiquei orgulhosa de mim mesma!!! Me fortaleci como mãe e como mulher… Eu jamais conseguirei descrever meus sentimentos quando vi a Isabela nascendo de mim. Eu tinha feito o meu parto!

Nascimento de Flora

nascimento-flora

Flora nasceu no dia 19 de junho, primeira filha da Luciana e do Cosme.

Eles são personagens de uma história de luta pelo respeito à vida.

Seria um lindo parto humanizado, mas virou um caso de violência obstétrica.

Flora nasceu saudável, na hora dela, depois de um trabalho de parto que faltou apenas o expulsivo.

O parto poderia ter sido domiciliar, mas a pressão da mãe se elevou.

Hora de ir para casa de parto (chuveiro, bola, banqueta, massagens e acupuntura).

Bolsa rota, 18 horas depois e: sete centímetros de dilatação sem evolução.

Transferência para um hospital público, onde foi recebida com descaso.

Não, ela não tinha passado nove meses planejando um parto perfeito para ser humilhada no ápice das suas contrações.

Juntou seus pertences e foi para sua última opção: hospital particular.

A conta do serviço prestado foi alta: R$ 14.200,00.

Mas nada supera a frustração que ela sofreu lá.

Eu assisti ao vídeo dessa experiência e procurei a Luciana, que me contou qual foi o caminho percorrido desde a descoberta da gravidez até o dia do nascimento de sua primogênita.

Quando engravidei, tinha em mente que queria parto normal. Não sabia de nada de parto humanizado. Só queria normal.

Por indicação de uma amiga, eu me consultei com um médico aqui da região (moro a uns 40km de Salvador, norte da Bahia).

A primeira pergunta que fiz foi se ele fazia parto normal, pois já sabia da dificuldade em achar algum médico disponível. Ele me respondeu com uma pergunta: você por acaso é índia?

Eu ri (indignada) e ele continuou. Disse que não tem tempo a perder e só trabalhava com cesáreas.

Eu claro fui embora e nunca mais voltei.

Comecei a procurar indicação de outro obstetra.

E uma colega de trabalho que tinha passado por um parto domiciliar me indicou uma médica de Salvador, referência em parto humanizado. Liguei prontamente e marquei uma consulta. Fiz meu pré-natal todo com ela.

Ela me mostrou este mundo me enviando matérias para ler e me explicando como tudo era simples assim.

Fiz meu plano de saúde uma semana antes de engravidar e estava com um problema. A médica só atendia particular (optei pagar tudo particular para garantir meu parto natural), mas não ia ter como pagar hospital para ter o bebê.

E domiciliar para mim era ainda uma realidade distante. Apesar de achar interessante, todo mundo falava que era perigoso e me sente desincentivada.

Minha médica me falou do Centro de Parto Normal, em Salvador.

Fui conhecer e amei! Pronto, estava escolhido o plano A.

Ela me explicou o que era doula e me convidou para uma roda de parto. Fui e conheci minha doula (contratada dias depois), ouvi muitas histórias interessantes e recebi muita informação.

Comecei a pensar, então, no domiciliar, mas minha médica já estava com a agenda cheia de partos na minha DPP e me indicou uma enfermeira obstétrica que trabalhava com ela e fazia partos domiciliares. Fui pesquisar a respeito e marquei um encontro. Achei demais!

Decidi contratar também, mas com a opção dela me acompanhar no trabalho de parto antes de ir para CPN. Assim me sentiria mais segura.

Li muito ao longo dos nove meses. As páginas do Face muito me ajudaram: renascimento do parto, humanize-se, parto humanizado, cesárea, não obrigada! e etc.

Comprei o DVD O Renascimento do Parto e fiz uma sessão de cinema em casa, chamei amigos e virei uma militante.

Parei de trabalhar com 38 semanas, minha mãe veio de São Paulo para ficar comigo e comecei a me preparar para que tudo desse certo. Frequentei roda de parto no CPN, encontro com doula e enfermeira, caminhadas diárias na praia, exercícios de agachamento. Vi (acho) todos os vídeos de parto natural da net, os de cesáreas e partos normais hospitalares também. O que me dava mais certeza do que eu queria.

Mas com 15 dias antes do parto minha pressão subiu. :/

Comecei dieta, suco de chuchu, nada de sal e sessão de acupuntura.

Melhorou.

Entrei em trabalho de parto com 41 semanas e 5 dias pelo primeiro ultrassom e 40 semanas e 5 dias pelo primeiro morfológico.

Alegria!

Foi na madrugada do dia 18.

Enfermeira já tinha levado piscina e banqueta para minha casa caso eu decidisse ter domiciliar (estava querendo, mas ainda meio insegura).

Meu marido encheu a piscina, doula e enfermeira chegaram e a fotografa também.

Decidi ter em casa, mas minha pressão voltou a alterar um pouco e decidimos ir para casa de parto. Fiz a acupuntura de novo lá e regularizou.

Optei por pagar: doula, pré natal e enfermeira pois sabia que se fosse para um hospital ou ia cair na máfia da cesárea ou sofrer procedimentos desnecessários como episiotomia. E meu bebê: corte do cordão precoce, aspiração, colírio e berçário.

E por eu saber que tudo aquilo que sofri era errado que briguei com todo mundo.

Mas estamos aqui. Felizes juntas. Passou. Tentamos.

Agora é continuar levando adiante a bandeira da humanização.

Contar minha história, ouvir outras histórias. Assim conseguiremos um nascer mais digno para nossos bebês!

E obrigada por divulgar. Que ajude outras mulheres a não passar pelo que passamos. A informação é a solução.

Sim, será feita uma denúncia. Claro que o mais importante é o bem-estar da Flora. Mas o que aconteceu com essa família precisa se combatido. Chega de violência obstétrica. E para que essa realidade mude, é necessário que o problema seja compreendido e denunciado. Por isso, estamos juntas, na luta pelos nossos direitos. Não podemos calar, não mais. #somostodxsluciana

Ela não comeu a placenta e nem correu nua e fez o pré-natal

Semana passada, publiquei na página do blog o link de uma matéria sobre um fato ocorrido aqui em Natal.

Apesar de compartilhar, não fiz nenhum comentário (apenas situei “aconteceu aqui em Natal”).

Eu não me senti segura de opinar com os detalhes pelo viés do médico, pois não era o suficiente.

O perigo de uma única história é porque ela é incompleta e revela só um lado.

A consequência de uma única história é essa: ela rouba das pessoas sua dignidade.

Chimamanda Adichie (escritora nigeriana)

No domingo (06), o médico Iaperi Araújo publicou em rede social seu espanto e julgou estranho o fato de uma paciente ter comido um pedaço da própria placenta. Inclusive, a placenta da parturiente ilustrava a publicação.

Recortei alguns trechos que me deixaram inquieta.

“Pediu uma tesoura pra cortar um pedaço e um pouco de coentro pra temperar. Não tinha. Comeu sem o tempero. Nunca vi isso na minha vida.”

“Não tinha médico nem fez pré-natal e me tratou mal. Não me deixou examinar, gritou comigo e respondi.”

“Foi a gota d’água na minha história de obstetra. Vou fazer os últimos partos das minhas pacientes grávidas.”

Sabemos que o Facebook é uma espécie de divã, ok! Mas um profissional da área médica tem o direito de divulgar questões pessoais dos seus pacientes?

Se você entrar na página dele não vai mais encontrar sua manifestação. Entretanto, ele deixou uma retratação na qual diz ter formação em antropologia e ser estudioso da medicina popular.

ERRATA: o texto e a foto continuam lá sim. Com mais de 500 compartilhamentos, muitas curtidas e comentários. (Ana Cristina Duarte comentou neste post com o link e estou atualizando agora – 15/07, às 8h)

Eu fiz contato com ele mas não obtive retorno e procurei o hospital na sexta (11).

Fui informada que o mesmo ainda não havia se pronunciado oficialmente, mas que estava fazendo um relatório.

Hoje, por telefone, fiquei sabendo que ainda não teve o encontro do médico com a direção do hospital.

E a Maria (nome fictício), onde encontra-la? Comecei uma busca até que hoje tive acesso ao seu relato traumático de violência obstétrica.

Uma mulher que foi considerada na mídia como surtada e reduzida à insignificância.

Eu queria muito ouvi-la. Quem sabe um dia possa abraça-la.

Maria, aqui você é livre. Tem vez, voz. Pode gritar, chorar e xingar.

Seus direitos não foram respeitados, mesmo você bem informada e ciente das suas escolhas.

Que você possa reconstruir sua história e que o nascimento seja tratado com mais individualidade.

Sou um animal ferido, que volta destroçado e ensanguentado para o seu ninho, após sobreviver a uma tentativa quase eficaz de abate. Sou um mamífero em apuros, com sua cria no colo, chorando pelo pouco leite que sai das tetas de sua genitora. Eu. Que assustada me escondo de tudo e de todos, pois apesar de ter sobrevivido ao abate, sou agora açoitada e perseguida por meus iguais, mamíferos de mesma ordem, agora robotizados e produzidos por algum processo estranho e sintético, alheio ao processo natural de continuação da espécie, não conhecem o amor, nem o nascimento, nem a maternidade.
[…]
Estou cá, lavando os panos do meu filhote, anotando mentalmente todas as sensações que tentarei escrever em letras num papel.
[…]
É incrível como na minha cabeça o desenrolar dos fatos e das emoções está cada vez mais claro, nítido, e é cada vez mais surreal a ideia de conseguir escrevê-lo.
[…]
Os flashes não me permitem dormir. O cansaço é infinito, as dores no corpo também são. Meus músculos que aos pouco se recuperam dos últimos dois dias sem dormir, juntamente com o cansaço provocado pelos momentos de tortura no hospital, meus músculos doem, doem tanto que parece que jamais vão sarar. Mas o que me dói mesmo é um canto do meu ser que não sei onde fica, não se o que é. Sinto apenas uma sensação de vazio na existência. Uma espécie de “rombo” no meu existir, no meu ser, e que me anula por completo, me derruba como nem os meus torturadores conseguiram durante aquelas três horas e meia na sala de parto do Hospital Papi. Penso que o abate moral é um limiar entre eu me suicidar e continuar existindo, me rastejando. Fui abatida? Será que morri? Mataram-me e continuei viva, pelo meu filho que precisava ouvir as batidas do meu coração e foi arrancado violentamente de mim pelas mãos de quem desdenhava de um animal ferido cujo sangue jorrava aos montes, preso a uma mesa da qual não podia sair, pois estavam-lhe arrancando o resto de parto, de vida, que havia nela, sua placenta, tracionada e arrancada brutalmente pelas mãos do obstetra que me atendeu na urgência do hospital. Foi um verdadeiro espetáculo para quem assistiu. Pena que não foi ficção, e alguém ali estava sendo humilhada, moralmente assassinada, fisicamente mutilada, destroçada. Se me mataram, fui então um cadáver vilipendiado.
[…]
Finalmente, exatamente dez dias após o nascimento do meu filhote, estou cá, sentada de frente ao computador, decidida a relatar o que me aconteceu. Foram dez dias de repouso e fortalecimento, mesmo com todas as críticas, com todos os comentários atrozes e as reportagens na mídia me deplorando. Fui chamada de louca, psicopata, disseram que deveriam tirar meu filho de mim (e então ter-me-iam arrancado tudo que restava, e de mim nada mais haveria além de um bolo de carne com um coração pulsante, quando então já não haveria mais o limiar do abate moral, eu já estaria morta). Foram dez dias também de intensificação de todo o sofrimento que me açoita, pois agora eu tenho de lidar com inúmeros telefonemas, mensagens, pessoas perguntando umas às outras se o absurdo da mulher que teria comido placenta, agredido médico e corrido nua por aí tinha sido eu. Infelizmente não
comi minha placenta, ainda, pois ainda não tive coragem para encará-la, pegar nela, senti-la, tão cheia de mim, da minha cria, e das emoções que vivenciamos durante nove meses, e nos últimos momentos do meu bebê dentro de mim. Infelizmente também não corri nua, precisei perder alguns minutos me vestindo com roupas sujas e ensanguentadas, pois até panos limpos me foram negados. Pensando bem, eu estava com muito frio, a hemorragia incontida me enfraquecia cada vez mais, acho que foi instintivo parar para me aquecer com aquelas roupas, ainda que sujas e ensanguentadas, aliás, sangue não faria diferença, pois depois que levaram meu filho de mim injustificadamente e manifestamente contra minha vontade para o berçário para lavá-lo com sabão, tirar o vernix protetivo e embrulha-lo com fraldas descartáveis e aquecê-lo artificialmente, desdenhando de meu clamor para tê-lo em meus braços, depois disso eu devo ter lavado com meu sangue o rol da frente do berçário. Perdoe-me quem estiver
lendo, os fatos vão e vem, não sei se consigo seguir uma ordem cronológica muito precisa. E por fim, infelizmente não agredi o obstetra. E sequer posso mencionar publicamente o que se passa na minha mente, nesse sentido, por dois motivos: primeiro, eu seria processada, julgada e condenada muito facilmente por algum tipo penal como ameaça, por exemplo. O judiciário não tem pena de foder com quem já está fodido. Segundo, não tenho energias para gastar com isso, preciso me concentrar no meu filhote, que precisa de mim. Se minhas tentativas de afirmar minha autonomia e meu direito de escolha que foram sistematicamente tolhidos e aniquilados durante todo o meu atendimento naquele dia 02 de julho de 2014, se foram agressões, talvez eu o tenha agredido. E ainda assim digo isso em tom de ironia. Imagino que se as minhas tentativas de sobreviver ao massacre foram agressões, o que foi o massacre que me ocorreu naquela sala de parto? Será que um médico famoso de Natal, professor da
universidade federal do RN, conhecedor de muitos juízes, promotores, respaldado pelo corporativismo médico, judiciário e elitista da região, será que ele seria sequer processado? Ou algum juiz amigo dele sentaria em cima do processo, ou mesmo enterraria o processo no quintal de casa? O que me resta é escrever um relato. É o substrato da violência patriarcal, machista, corporativista e medicalocêntrica que nos encarcera nesse projeto de civilidade que se nos impõe, rouba de nós mulheres a autonomia, a força, o parto, o nascimento e a maternidade. Uma mulher que pari e sabe a força animal que tem em si é uma grande ameaça a esse sistema, não é mesmo?
[…]
Cheguei no hospital por volta das 20h30… Eu estava a mais de 36 horas em trabalho de parto ativo, bolsa íntegra. Quando subi para o atendimento, ouvi um velho grosseiro me gritando: “por que não fez pré-natal??”. Eu respondi: primeiro, eu fiz pré-natal, mas não trouxe nada comigo, e segundo, o senhor não precisa falar assim comigo, viu? Ele respondeu que estava falando em tom normal, que não tinha nada a ver, e saiu sorrindo. Eu havia feito todos os exames de sangue, ultrassons, inclusive no dia 01 de julho eu havia feito uma ultra cujo diagnóstico foi excelente, meu líquido estava bom, o bebê encaixado, saudável, maduro.
Quando meu pai chegou na sala de atendimento o obstetra foi logo dizendo que não ia me atender, que se precisasse fazer alguma coisa ele não ia fazer, porque estava sozinho, e assim, manifestamente e na presença de todos que comigo estavam, me violentou pela primeira vez, negando-me atendimento. Pedi a meu pai que fossemos embora, pois a coisa não ia funcionar daquele jeito. Mas ele não concordou, estava muito apreensivo, e cansado. Resolvi ficar. Não sabia que estava naquele momento assinando minha sentença de morte. Eu tinha ouvido que eu iria pro quarto. Pensei: tudo bem, eu vou parir no quarto, deve estar pertinho e eu só
preciso de um quarto. Mas não tinha leito no Papi, e não me encaminharam para outro hospital. Eu deveria ficar ali mesmo, esperando. Foi então quando o douto doutor resolveu me examinar. Essa violência foi um pouco mais dolorosa. Ele fez um toque, rompeu minha membrana, gritei de dor. Sua mão saiu de dentro de mim lavada com meu sangue e um pouco da minha integridade, que aos poucos ele terminaria de arrancar de mim nas três horas e meia seguintes. Pedi para ficar nua, e me foi dito que eu não poderia ficar nua, pois naquele hospital eu deveria seguir os protocolos. Consegui ficar apenas com a bata cobrindo-me os peitos.
Aceitei a analgesia. Não sabia eu que ali estava o ápice da dominação do meu ser, pois sem sentir as pernas eu não poderia me defender, sair andando, correndo, não poderia mais fugir do massacre, eu me tornaria um animal indefeso. Foram chamar o anestesista. Entre uma contração e outra, que já estavam vindo de minuto em minuto e cada vez mais forte, gritei: cadê o filha da puta do anestesista? No meu tempo ele já estava demorando muito, eu já estava desesperada, e aquilo era meu grito de socorro. Então, ironizando e debochando de mim, o doutor gritou: chamem aí o filha da puta do anestesista! A cada segundo que se
passava eu percebia mais o quanto aquilo estava fadado a não dar certo, o cara era um estúpido, e não economizava seus deboches e suas grosserias. Quando ele chegou fui para a sala de parto, onde estava a mesa de parto, o aparato onde eu estaria sendo torturada pelas próximas três horas e meia. Devia ter cerca de um metro de comprimento, por uns 70cm de largura. Imagino que se eu fosse mais larga eu teria me espremido entre os ferros. O anestesista me disse para sentar com os ombros curvados, pedi então que ele aproveitasse entre uma contração e outra, pois eu não conseguiria ficar parada naquela posição durante
uma contração. Eu pedia para ele ir logo, mas ele estava muito ocupado falando ao celular. Depois disso eu tive que deitar em posição de exame ginecológico, a posição da dominação. Eu estava completamente dominada. Perguntei se poderia ficar em outra posição, de quatro, por exemplo, ou de lado, pois me aliviava a dor, e isso me foi de pronto rebatido com “NÃO” por todos os lados. Eu deveria ficar quieta, segurando em dois ferrinhos que tem do lado das pernas na cadeira de parto. Eu não podia sequer por as mãos nas minhas pernas, aliás, minhas tentativas foram todas frustradas, eu teria repetidamente minhas mãos encaminhadas de volta aos ferros da cadeira. Estavam comigo meu pai e Daniel, um amigo clínico geral que havia ido conosco ao hospital. Me diziam para fazer força, empurravam minha barriga, eu fazia força até sentir que ia vomitar. A orientação era essa: quando você achar que não vai aguentar e vai vomitar, pare. O anestesista pressionava meu estômago com seu polegar, era fatal. Vomitei não sei nem quantas vezes, após cada contração, após ter meu estômago pressionado repetidamente. Eu não tinha vomitado ainda, antes de ir pro hospital. Vomitei deitada, quase morri engasgada com meu próprio vômito e ninguém sequer me ajudava a me limpar. Até meu pai e Daniel cederam às ordens autoritárias do obstetra e empurraram minha barriga. Segundo
o anestesista, todos deveriam obedecer ao obstetra, pois ele era professor de todos. Eu sofria com a dor dos empurrões e da mão do obstetra dentro da minha vagina. Me senti estuprada. Diziam que era assim mesmo, e que se eu não me concentrasse ia matar meu bebê, que daquele jeito estava difícil, que eu não ia conseguir. Ouvi isso repetidamente durante as três horas e meia em que estive lá. Lembro que eu mantinha em mente sempre que eu não poderia apagar, então controlava a força até um pouco antes do meu limite, com medo de ficar inconsciente e do que poderia vir a me acontecer. Eu estava apavorada, e disposta a tudo para parir meu filho. Eu não iria pra faca, de modo algum eu me submeteria a uma cesárea, ainda com toda aquela oferta. Vi gente entrando e deixando bolsa pessoal na sala de parto, com celular tocando, vi gente entrando com walk-talking ligado. Eu reclamava que tinha muita gente e muito barulho, e que as pessoas não estavam me ajudando. A pediatra, Lívia, disse que aquele parto era uma loucura, que eu era louca, e que tinha que ter aquela equipe toda lá dentro, disse que eu não era ninguém para discutir a necessidade ou não de todas aquelas pessoas ali. Na verdade não entendo porque era tão necessário, pois estavam todos (à exceção do obstetra que me violentava com suas mãos carniceiras e o anestesista que insistia em empurrar minha barriga) apenas observando, gritando comigo, conversando entre si e fazendo da minha vagina aberta e exposta um souvenir de apreciação. Eu implorava, aos prantos, para o obstetra tirar as mãos de dentro de mim, pois ele estava me machucando, me invadindo, e
ele repetidamente se negou a me atender, disse-me que se eu tivesse procurado um ginecologista eu não estaria ali atrapalhando a vida dele, disse-me que não estava ali para prestar serviço algum para mim, e que minha vida pouco lhe importava, ele só se importava com o bebê. Quando o bebê nasceu eu percebi que na verdade nem com ele o cara estava preocupado. Ele queria, assim como toda aquela equipe estúpida, que aquilo acabasse logo. Eu chorava, olhava pro meu pai e pedia ajuda, dizia que estava foda pra mim, e ele então pedia ao médico que calasse a boca, pedia a tal da Lívia que se calasse também. Eu disse que não queria
que cortassem o cordão umbilical do meu filho, e o obstetra perguntou com base em quê eu dizia aquilo. Respondi que tudo que eu queria estava no meu plano de parto, que estava lá, que ele deveria ver, e que eu dizia aquilo com base na minha autonomia e no meu direito de escolha. Ele respondeu sagazmente que não aceitava plano de parto, e que nunca tinha ouvido falar naquelas coisas não, que lá aquilo não existia. A pediatra Lívia então começou a gritar comigo dizendo que tinha que examinar o bebê, medir, pesar, fazer testes, levar pro berçário, e eu disse que não deixava, ela me gritando e chamando de louca disse que eu não tinha
autoridade pra decidir nada sobre o meu filho, eu respondi que o filho era meu e que ninguém o tiraria de mim. Tudo isso entre uma contração e outra. Às vezes a contração passava enquanto eu tentava me defender de toda aquela escoriação moral. Pedi então ao meu pai para que me ajudasse pois eu precisava me focar no trabalho de parto, meu filho estava prestes a nascer. Ele pediu a ela que colaborasse, que não tinha pra que discutir aquelas coisas comigo naquele momento. Ela respondeu que não se calaria, que tinha que falar e que eu tinha que ouvir mesmo. É incrível como eu me impressiono quando lembro do horror que vivi
naquela sala. Lembro que quando o doutor fez o toque eu estava com 8cm de dilatação, ainda não tinha começado o expulsivo. Pouquíssimo tempo depois minha tortura começara, e desde a primeira contração o médico dizia: na próxima ele sai, faça força que ele vai sair, ô Márcio, empurra aí a barriga dela. Dizia: olhe, eu sou muito bom em fórceps, pena que meu equipamento não está aqui. Eu reclamava que ele estava me machucando, que tava doendo, e ele dizia: se você quisesse um parto sem dor faria uma cesárea, quer? Você não quer uma cesárea, ta vendo? Ta reclamando de que? Eu reclamava da luz, do barulho e ele respondia: eu
já fiz parto humanizado, com baixa luminosidade, poucas pessoas na sala, mas aqui eu não tenho tempo pra isso não. Foi um horror ouvir aquilo, até eu queria que acabasse logo, mas eu não ia pra faca, e eu não ia ter meu corpo condicionado a uma ocitocina sintética. Eu estava disposta a parir meu bebê, a qualquer custo, ainda que me estivesse custando a integridade
moral e física. No finalzinho do processo a bolsa rompeu. O médico ouviu o coração do bebê, estava 130bpm. O líquido estava límpido. Mas eu ouvia que o bebê estava em sofrimento. Imagino que presenciando toda aquela tortura, todo aquele tratamento desumano e degradante, meu bebê realmente estivesse sofrendo, mas em sofrimento fetal ele não estava. Eu sabia que estava tudo bem com ele. Eis que então o líquido começou a se apresentar meconioso, mas de toda forma, para que se comprovasse o sofrimento fetal ele deveria ao menos ouvir novamente o coração do bebê, mas quando indagado sobre tal, o obstetra respondeu que não iria mais ouvir, já tinha ouvido uma vez (antes da rutura da bolsa). Quando o líquido mudou de cor toda a pressão psicológica se intensificou. E então, coagida a aceitar, sob pena de “matar meu bebê”, cedi a uma episiotomia, que segundo o médico seria só um cortezinho pequenininho. Meu pai disse que ele cortou com a tesoura e terminou de rasgar
com a mão. Há uns dois dias tive coragem de me ver, e descobri uma episiotomia que me rasgou até o anus, e que me dói para sentar, para andar, dói muito na hora de ir no banheiro, mas a dor maior que eu sinto é na alma. Nem sei se um dia vou ter coragem de abrir as pernas de novo. Meu bebê então nasceu, veio para o meu colo, todo lindo, roxinho, cheio de mecônio, respirando bem e chorando bravamente!!!! Viva! Eu havia conseguido!!! Eu e ele havíamos conseguido! Nosso pesadelo acabaria! Enquanto eu tentava dizer a todo mundo que ele tava bem, tava respirando, tava chorando, e que precisava ficar comigo. Disseram o obstetra e a pediatra que tinham de cortar o cordão senão o sangue voltaria e o bebê perderia sangue. Meu pai então recebeu das mãos do obstetra uma tesoura e cortou o cordão. Enquanto isso a pediatra Lívia estribuchava querendo arrancá-lo de mim, pois precisava examiná-lo, ver o que era aquela bossa na cabeça dele (por certo ela não sabe nada de parto normal, de bebês que de fato nascem, em vez de serem arrancados de suas mãos pela barriga, por certo ela não sabe que bossa é comum e não é problema algum, por certo ela também não sabe que não precisa aspirar o bebê, mesmo com presença de mecônio, desde que o bebê esteja respirando bem, e mais certo ainda que ela não sabe do meu direito de decidir sobre isso). Mas ninguém me ouviu. Sob tal terror dessa médica inescrupulosa, meu pai me olhou e disse: entregue o bebê se não eu vou embora. Daniel, com cara de apavorado, corroborou a fala do meu pai. Nessa hora tive medo de ficar sozinha e ser por fim trucidada e aniquilada, e aos prantos entreguei meu bebê para que fosse examinado na sala de parto. Pegaram ele que nem uma trouxa de panos e o aspiraram. De nada adiantou o pacto com meu pai, pois ele ainda assim se foi. Saiu para buscar um pote para a placenta. Nessa hora olhei e vi o obstetra puxando minha
placenta, o anestesista preparando uma injeção anti-hemorrágica e uma pessoa de bata azul sinicamente levando meu bebê para o berçário enquanto eu gritava para ele não ir. Desde o primeiro momento eu havia confiado a Daniel a tarefa de não deixar leva-lo, mas ele também cedeu. Essa talvez seja a parte que mais me dói. Quando minha placenta saiu eu gritei: a placenta é minha!! O médico ia jogá-la no lixo. Ele ainda ironizou querendo me apresentar à minha placenta, mas nessa hora eu só pensava em ir buscar meu filho. Pedi panos limpos, e me negaram. Pedi uma escada para descer da mesa. Negaram-me. O anestesista olhou pra
mim e disse: mas você não pode andar, não sente suas pernas. Bati com força na minha panturrilha, dei vários tapas, com força, queria sentir o sangue circular, bati nas pernas dizendo que podia sim andar, e que se não me dessem uma escada eu ia pular dali, sangrando como estava, jorrando sangue. Eu era um animal ferido, mutilado, ensanguentado, que teve sua cria tomada. Eu estava transtornada. Queria sair dali e me recolher, eu precisava me proteger, eu iria morrer sangrando ali, ninguém me daria meu filho para que ele pudesse mamar e estancar a hemorragia. Tentaram me impedir de sair da sala de parto, pois eu estava nua. Foi então que me deram meus trapos sujos de sangue, vesti ali no corredor mesmo, e fiquei gritando na frente do berçário, de portas trancadas, gritando que queria meu filho comigo. Foi o ápice do espetáculo. Um ser abatido, à beira da morte, lutando para ter sua cria de volta, e uma plateia imensa e inerte assistindo, me dizendo para tomar banho, me limpar, e então eu poderia ver meu filho, pois eu estava desequilibrada e ele não era propriedade minha. Eu não vou nem mencionar o quanto eu queria exterminar cada uma daquelas pessoas que se interpunham entre mim e meu filho, mas eu estava muito fraca, perdendo muito sangue. Foi então que meu pai, que havia saído, voltou (depois de andar em volta do hospital sem saber pra onde ir, resolveu voltar) e me ouviu gritando, desesperada. Quando ele chegou à porta do berçário gritou dizendo que queria o bebê, e como resposta teve apenas o desdém de todos. Foi preciso ele ameaçar arrombar a porta para que resolvessem sensatamente entregar meu filho (a ele). Finalmente pude ter meu filho nos braços. O que me foi arrancado jamais terei de volta. Foi o dia mais pavoroso da minha vida. Espero um dia poder fechar os olhos para dormir em paz, sem que os ecos dessa tortura me atormentem.
[…]
Não consigo mais remoer os fatos, escrever esse relato me trouxe à exaustão.

Li várias vezes sem querer acreditar.

Isso não pode ficar assim. E nem vai ficar.

A Artemis denunciou o caso e aguarda apuração e pronunciamento dos órgãos competentes.

Foi criada uma rede de apoio para amparar a Maria que precisa do nosso acolhimento.

Se você quiser doar afeto e conforto envie um e-mail para nosnaodormimos@gmail.com.

brasil-ita

Crítica ao Bem Estar

Hoje o programa da Globo que trata especialmente de assuntos relacionados à saúde e qualidade de vida falou sobre humanização, doula e amamentação.

Não foi total desserviço, mas as falas dos médicos (participantes) foram verdadeiras pérolas.

Só revela o despreparo (na frente das câmeras?) e falta de conhecimento das evidências científicas.

Sugerir que o uso do colírio deve ser rotina (obrigatório?) não é verdade (pauta para um próximo post)!

O Dr. José Bento que me perdoe. Mas dizer que vai faltar assunto durante o trabalho de parto???

Eu reconheço a importância do jornalismo científico, mas pareceu que o Bem Estar é mais um programa de variedades.

O produtor poderia ler as Diretrizes da Rede Cegonha antes de colocar um programa como o de hoje no ar.

Passou uma matéria com uma parturiente declarando que queria um parto normal, mas o bebê estava em posição pélvica.

Se é para informar, que mostre o outro lado pois o bebê sentado não é impedimento para parto normal.

E para separar o joio do trigo, transcrevi um trecho interessante:

“A gente está aqui para trazer força para as mulheres. Para ele se empoderar do seu corpo, de saber que elas são capazes, de saber que elas vão conseguir”. Fabiana Gripa, doula.

bem-estar

O olhar artístico de uma mãe

Uma mulher que desejou um parto normal, avisou a sua médica e no final passou por uma cesárea.

Onze anos depois, ela engravida novamente e resgata o sonho de parir.

E assim, nasceu Raul no mês passado, em um parto domiciliar humanizado.

Itaiana se inspirou na própria experiência materna para retratar sua  história (e de tantas outras mulheres).

Descobri seus desenhos artísticos e a convidei para esta participação aqui no Blog Palavra de Mãe.

O que me chamou atenção foi a temática relacionada à humanização do parto tão bem contextualizada e reflexiva.

Incentivada pelos pais, Itaiana desenha desde pequena (10 anos) e sempre gostou de fazer retratos.

Ela ministra aulas de desenho e utiliza as técnicas de grafite, lápis de cor e giz pastel seco.

Aos 32 anos, já participou de várias exposições com seu trabalho realista e belo.

Sou Itaiana Battoni, artista plástica, moro em Araraquara, sou companheira do Thiago, mãe da Lavínia (11 anos) e Raul (quase 2 meses). Tenho uma família linda!

Quando fiquei grávida pela primeira vez achava que nascer era normal e que para ter um parto normal bastava informar o médico do meu desejo, mas não é bem assim. Ele dizia que faria o melhor para mim e para minha filha, mas no final da gravidez disse que não nasceria de parto normal porque não estava encaixada e era grande demais, marcando assim a cesárea sem ao menos esperar um sinal de que ela estava pronta para nascer. Passei anos inconformada e tentando entender porque era tão difícil ter um parto normal. Até que encontrei grupos de apoio ao parto. Conheci pessoas maravilhosas e entendi o que aconteceu comigo. Veio, assim, a inspiração para fazer desenhos relacionados à maternidade e parto.

O primeiro desenho foi “Mentalize”. Eu mentalizava e sonhava com o parto normal durante a gravidez da Lavínia e continuei sonhando depois que ela nasceu.

mentalize-ita

O segundo “Enrolados”. Foi assim que fiquei, enrolada em mentiras que me contaram, com medo e achando que meu corpo tinha algum defeito.

enrolados-ita

Então veio a ideia de Colher/Acolher, uma representação simples da diferença entre cesárea eletiva e parto natural, uma mão com luva retirando um fruto que ainda não está maduro e duas mãos amparando e esperando um fruto cair.

colher-acolher

Vieram outros, até que desenhei “Cicatriz”. Este representa como me senti após a cesárea indesejada e desnecessária que eu passei. Aliás, eu soube que havia sido enganada assim que minha filha nasceu, quando me disseram o peso e o tamanho do “bebê grande demais para um parto normal” – 2,650Kg e 46cm.

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Descobri que o prontuário do hospital pertence ao paciente e que eu tinha o direito de pedir. Eu queria saber o que estava escrito lá, qual era o motivo da cesárea e para minha surpresa não havia motivo. Somente um códico CID 10 082-9 que pesquisando na internet descobri se tratar de “cesárea não especificada”. Desenhei “Motivos” e “Brasil”.

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brasil-ita

Eu queria ter outro filho, mas tinham me falado que uma vez cesárea, sempre cesárea, sendo assim dizia que não engravidaria de novo. Quando descobri que eu poderia sim ter um parto normal busquei informação, tracei meu caminho e engravidei.

Fiz “A Onda”… Uma mulher enraizada, forte e empoderada sustentando suas escolhas e lidando com a contração, a onda.

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Durante a gravidez eu não consegui desenhar.

No dia 1º de abril de 2014, o Raul chegou de parto natural domiciliar planejado.

Voltei a desenhar!

“Ocitocina” é o momento que o amor transbordou, o nascimento do Raul e o renascimento da nossa família  e “Pedaço de mim” onde aparece a cicatriz da cesárea e o parto.

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Acho que todos esses desenhos, na verdade representam o meu caminho, minha busca pelo parto. O desejo que nunca saiu da minha cabeça. Por isso quando me perguntam sobre o tempo de trabalho de parto digo que foram 11 anos.

Minha primeira gravidez foi aos 20 anos, estava cursando Química e a maternidade veio transformar tudo. Cursei mais um semestre após o nascimento da Lavínia, quando o Thiago passou num concurso e foi chamado em Pirassununga. Não demorou muito para eu jogar tudo para o alto e ir também. Abandonei o curso. Não temos ninguém da família e não aguentei ficar sozinha. Lá comecei dar aula de desenho em casa e consegui me dedicar a Lavínia. Foi um ano muito bom, tenho boas recordações. Essa foi a primeira grande transformação que a maternidade me troxe, fiz de um hobby minha profissão!

Depois um ano voltamos para Araraquara e continuei com as aulas. Lavínia foi crescendo no meio dos lápis e papéis, ela é minha amiga, companheira e desenha muito bem!

Após o nascimento do Raul a transformação foi como mulher, eu me sinto mulher de verdade agora e sei que meu corpo é perfeito.

CESÁREA ELETIVA X PARTO NATURAL

Não tem comparação!

Na cesárea, ninguém ao menos se preocupou em me explicar o que estava acontecendo. Passaram a sonda antes da anestesia sem ao menos dizer que faria. Fiquei com as duas mãos amarradas e sozinha, não permitiram acompanhante. Tive hemorragia. Minha filha passou por procedimentos que hoje sei que são desnecessários e doloridos, ficou longe de mim. Senti muita dor depois, mal conseguia andar, tomar banho e cuidar da Lavínia.

O parto eu busquei, me informei, me preparei e planejei. Fui respeitada, tratada com carinho, silêncio, massagens, palavras de conforto, olhares confiantes e respirações tranquilas durante o trabalho de parto. A sensação de parir é de muito poder e realização. Ele veio direto para meus braços e nenhum procedimento foi feito.

Amo meus dois filhos da mesma forma. Consigo separar a maneira que aconteceu o nascimento deles! Quando a Lavínia nasceu eu fiquei muito feliz com a chegada dela, assim como fiquei feliz com a chegada do Raul! A maternidade e o amor não tem relação com a via de nascimento.

A PREPARAÇÃO PARA O PARTO

Comecei a me preparar para o parto antes mesmo de engravidar. Fui em encontros do grupo de apoio ao parto “Nascer Naturalmente” daqui da cidade. Conheci pessoas que tiveram seus filhos em casa. Li muito sobre isso e quanto mais eu li, menos sentido eu vi em ir para o hospital.

Marquei uma consulta com um médico humanizado, disse que estava pensando e engravidar e fiz muitas perguntas, até sobre parto domiciliar. Na saída ele disse: “Fique tranquila, nós falamos a mesma língua”. Gostei tanto de saber disso! Também já estava em contato com a parteira pelo Facebook, acho que começamos conversar por causa do meu desenho “Cicatriz” que na época foi muito compartilhado. Eu falei pra ela que gostaria de engravidar novamente, mas tinha muito medo de não conseguir ter um parto novamente. Ela disse que me acompanharia se eu quisesse e fiquei ainda mais confiante. Já tinha um médico para o pré-natal e uma parteira para o parto domiciliar, só faltava o bebê (risos)!

Depois de alguns meses, engravidei! Foi um turbilhão de emoções. Estava feliz, mas ao mesmo tempo pensava “o que eu fui fazer???”. Tive muito medo de tudo se repetir, mas lembrava de uma frase: “Ninguém entra no mesmo rio uma segunda vez, pois quando isto acontece já não se é mais o mesmo. Assim como as águas que já serão outras” – Heráclito.

Fiz o pré natal em Jaú com o Dr. Braulio Zorzella. Desde o início eu disse que seria domiciliar e a cada consulta uma longa conversa sobre a gravidez, parto domiciliar, trabalho de parto, posições de parto, equipe, plano de parto, recepção do bebê, etc… Foi um pré natal acolhedor e de muito respeito, sem exames de toque, sem excesso de exames e ultrassonografias, sem vitaminas já que meus exames estavam ótimos.

Ao mesmo tempo estava em contato com a parteira Ana Cris de São Paulo. Mandava os resultados dos exames para ela acompanhar o pré natal. Com 25 semanas fui até São Paulo para uma consulta e para combinar tudo sobre o parto domiciliar.

Precisávamos de parteira back up, caso a Ana Cris não conseguisse vir e marquei outra consulta com as parteiras Shirley e Juliana de São Carlos. Escolhi minha doula, minha amiga Mariana Tezini, que já tinha passado pela experiência de um parto domiciliar após cesárea e sabia dos meus medos. Conversei com a pediatra Ana Paula e ela topou vir de Campinas até aqui para o parto. Também fui atrás de um médico back up, caso precisasse de uma transferência para o hospital e novamente mais uma consulta, em São Carlos, com o Dr. Rogério. Tudo certo, equipe formada!

Providenciamos alguns itens para o parto, como a piscina inflável, mangueira, óleo para massagem,lençol de plástico para a cama, lençóis descartáveis, etc.

Ah! Era tudo segredo! Quase ninguém sabia que seria domiciliar, nem nossas famílias. Preferi assim, não queria que ficassem preocupados, achando que era arriscado ou que era loucura. Naquele momento eu não queria ficar explicando nada. Também quis evitar expectativas, já estava difícil ter que lidar com as minhas.

O PARTO

Ainda não escrevi meu relato de parto, mas vou tentar contar um resumo.

Com 40 semanas e 3 dias começaram as contrações. Era meia noite, dia 1 de abril. Acordei o Thiago. Sabia que era pra valer, já estava sentindo desde as 22h. Ele começou marcar o intervalo e a duração das contrações, também fez massagem durante as contrações, foi gostoso esse tempo que passamos só nós dois em trabalho de parto.  Ligamos para a Ana Cris as 5h da manhã e ela veio (pra mim veio à jato)! Perdi totalmente a noção do tempo, parece que tudo acontecia muito rápido. A Mariana chegou um pouco antes da parteira e eu estava no chuveiro, sentada na bola, um alívio. Não sei que horas a Ana Paula chegou.

Inflaram e encheram a piscina com água morna, eu entrei. Estava muito gostoso, consegui cochilar nos intervalos e recebia massagem da Mariana e do Thiago durante as contrações, a Lavínia ficou por perto, lembro dela jogando água nas minhas costas. Dei um grito um pouco diferente e a parteira me perguntou se tinha sido um puxo e eu disse que não. Ela me examinou e eu estava com dilatação total, era meio dia (segundo o Thiago).

Continuei na água, mas as contrações espaçaram. A Mariana e a Ana Cris sugeriram que eu saísse para andar. Andei, agachei, sentei na banqueta, levantei, sentei de novo e nada de sentir vontade de empurrar. Fiquei na banqueta de parto com Thiago sentado atrás de mim, me apoiando e a Lavínia sentada na minha frente. As contrações estavam bem doloridas, eu chorei, disse que não estava conseguindo e estava me sentindo fraca. Todos a minha volta estavam tranquilos. A parteira me olhava no olho, nunca vou esquecer aquele olhar. Ela me dizia que estava tudo bem, que eu estava bem e que estava conseguindo sim. Então, veio uma força muito grande, senti queimar e a cabeça saiu, a força continuou, senti ele girando e o corpo saiu, tudo numa contração só. Chorando, eu disse: eu consegui! Era 15:28 e ele veio para meu colo. Não tem como descrever a sensação de pegar o bebê quente e todo melecado. É delicioso! A Ana Paula o cobriu com uma fraldinha quente. O Thiago chorou, a Lavínia nos abraçou, vimos que era um menino (escolhemos não saber o sexo antes do nascimento) e o amor transbordou. O cordão só foi cortado pelo papai quando a placenta saiu, Raul recebeu todo o sangue que era seu de direito. A pediatra o examinou e pesou e a Lavínia foi quem colocou a roupinha.

Fiz a melhor escolha. Estava no melhor lugar, na minha casa com minha família, eram as minhas coisas (minha cama, meu banheiro, minhas toalhas). Em momento algum senti medo. Foi a melhor experiência que já tive e a certeza que não poderia passar por essa vida sem saber o que era parir. Eu consegui!

Parto em casa não é um ato de coragem, não é loucura, nem moda…

Parto em casa é uma escolha informada, consciente e é segura!

parir-ita

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Ita, de todos os relatos que li até hoje, só o seu me despertou a sensação deliciosa de como é segurar o bebê quentinho e todo melecado. Como eu te disse, foi mágico. Espero que esse instante seja projetado para daqui a alguns anos quando um dia eu engravidar novamente e mesmo após uma cesárea eletiva possa escolher um parto sem intervenções e com muita ocitocina. Quem sabe até eu também diga: meu trabalho de parto durou 11 anos.