“Amamentar é natural, mas não é fácil”

Relato de Amamentação

Por Ellen Paes*

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Ninguém conta isso pra gente com todos os detalhes sórdidos. A gente passa a gestação inteira se preparando pra mil coisas externas e esquece de se preparar pro parto e pra amamentação. Pelo menos, eu, que engravidei sem planejamento, achava que essas eram duas coisas que iriam acontecer naturalmente, que nascemos pra isso, portanto, iria acontecer.

Não quero entrar em detalhes sobre o parto, mas pra falar sobre a amamentação, eu preciso falar que eu morria de medo de parir. Cresci na cultura do medo, achando que meu corpo era uma bomba-relógio prestes a explodir. Todas as minhas tias passaram por cesarianas e sempre me disseram que eu não conseguiria. Fui desencorajada. Esse processo foi mudando conforme eu fui me informando. Um pouco tardiamente. Do alto das 37 semanas de gestação, mudei de obstetra várias vezes e, ainda assim, não pari. Minha médica me exauriu, me invadiu de diversas formas e a equipe falava asneiras durante todo esse processo. Não consegui parir: foram nove horas de trabalho de parto e eu não pari. Minha filha estava no canal vaginal quando a puxaram abruptamente pelo corte da cesariana. Eles não me deram ela no primeiro minuto de vida e ela não mamou na primeira hora, como deve ser e como é recomendado por todos os organismos de saúde. Na época, eu não me preocupei com a amamentação porque tinha certeza que isso seria muito fácil pra mim.

Não foi. Ela demorou muitas horas até vir para o meu peito. Ficamos separadas, eu fiquei em um corredor, tremendo de frio e com os peitos doloridos, implorando pra ter minha filha neles. A maternidade era privada e estava lotada com as gestantes que marcaram a data das suas cesarianas. Eu não marquei porque queria que tudo ocorresse de forma natural. Mas não ocorreu. E a frustração foi enorme.

Dali em diante eu disse que faria tudo do MEU jeito e do jeito da minha filha. O que essa experiência teve de frustrante, ela teve de empoderadora: “meu corpo minhas regras”. Levo isso como mantra. Quando minha filha chegou aos meus braços, não larguei mais e não permiti que ninguém mais dissesse o que eu deveria ser/fazer como mãe ou como mulher. E assim tem sido até hoje.

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A amamentação foi meu parto roubado

A Valentina mamou de primeira. Assim que ela veio pro meu colo, ela sugou meu peito com força. Por horas seguidas, assim que nos foi permitido. Lembro até hoje da sensação única de um sonho realizado. Eu sempre me imaginei amamentando. Sempre tive em minha mente a imagem de minha mãe amamentando meus irmãos gêmeos ao mesmo tempo. Sempre achei lindo, poderoso. Imagina poder alimentar um ser humano com seu próprio corpo? Era fantástico estar passando por aquilo. Mas, passada essa emoção da primeira vez, vieram os desafios: pediatra mandando comprar leite artificial “porque você não vai aguentar, nosso corpo não suporta, é exaustivo”. Família dizendo que não tinha problema dar mamadeira, pai em crise, um festival de gente se metendo. “Não precisa dar peito toda hora”, “um leitinho na mamadeira vai te deixar mais livre”, “ela vai ficar mal acostumada”.

Primeira crise: exaustão

Em 15 dias, eu quis morrer. Eu disse pra minha mãe que queria morrer. Não estava aguentando a pressão: estava sem dormir duas horas seguidas há muito tempo, pessoas se metendo, e meu peito fabricava leite sem parar. Levei a Valentina pra vacinar e quem precisou ser atendida fui eu. Aliás, um salve pra Clínica da Família do SUS que foi a única que realmente soube me acolher, me incentivar e me ajudar nessa construção.

Falo de construção porque ser mãe, amigas, não é uma coisa que acontece automaticamente não. Não nascemos mães (assim como não nascemos mulher, tornamo-nos: um salve pra Simone de Beauvoir também!). A maternidade é um papel construído como todos os outros. No dia a dia, na vivência. Acho que entendi isso nesse dia, no posto de saúde, com minha pressão a 8 por 5 e meu peito enorme e duro feito pedra. Fui atendida por uma equipe formada por duas enfermeiras, uma pediatra, uma ginecologista e uma psicóloga. Eu dizia que estava sofrendo e não queria mais ser mãe. Que estava sendo muito difícil. As enfermeiras massagearam as mamas até desempedrar. A pediatra ficou com a Valentina no colo, a ginecologista me ensinou a cuidar dos seios em casa e a psicóloga me garantiu que tudo era uma questão do meu corpo se adaptar à nova demanda. Totalmente diferente do discurso da pediatra da maternidade privada. Só me deixaram sair de lá quando estivesse acalmada. Nos dias seguintes, fiquei meio aérea. Um misto de cansaço, tristeza e culpa por estar sentindo tudo aquilo. Não queria rejeitar minha filha, não queria me sentir pressionada pela maternidade. Uma amiga querida (oi Vivian!) me acolheu dizendo que se eu insistisse mais um pouco, tudo entraria nos eixos. Ela também teve dificuldades no início, pois sua filha nasceu antes do tempo. E, como ela disse, assim foi. A despeito de um mamilo sangrando e um primeiro mês infernal, conseguimos estabelecer a amamentação. Mas eu ainda dizia pra minha mãe que não sabia se chegaria a 3 meses de amamentação.

(rs)

Foram 3 meses… mais 4 anos. Um total de 4 anos e 3 meses de muita mamação e amor. E muitas outras crises também, como tudo na vida.

Amamentei exclusivamente por sete meses e ela não tomava nem água. Lembro que nessa época eu estava em Natal, um tempo na casa da minha mãe e um tempo na casa da minha sogra. Muita gente dizia que minha filha estava passando sede. É impressionante como quase ninguém acredita quando dizemos que o nosso leite é feito pro nosso bebê. É tudo o que ele precisa nesse tempo e hidrata muito mais do que água, além de alimentar. Eu passei a acreditar no meu corpo. E isso fez toda diferença. Não amamentei de 3 em 3 horas como mandaram, amamentei sempre que ela pedia o peito. Livre demanda. Aliás, LIVRE é uma palavra que gosto muito. Vocês vão perceber…

Segunda crise: retorno ao trabalho

Chegou o momento de cortar mais um pedaço do cordão umbilical. E foi difícil, em duas fases. A gente fica muito envolvida nesse papel maternal e sete meses é ainda um tempo muito curto pra que esse vínculo esteja realmente estabelecido. Voltei ao trabalho e tive febre todos os dias por uma semana. Lembro de ter passado mal no metrô algumas vezes. Depois disso, meu corpo, sabiamente, mais uma vez se adaptou à nova demanda e passei a fabricar leite pra ela mamar durante a noite e de manhã. E nos fins de semana, na hora que ela quisesse: continuei a livre demanda nos momentos que estava com ela. Mas o fato é que EU ainda não estava preparada pra voltar ao mercado de trabalho. Não aguentei o tempo distante e parei de trabalhar. Não estava valendo à pena trabalhar em algo que eu não gostava e passar oito horas do meu dia longe dela, que ainda era um bebê. Então voltei pra casa e só retornei ao trabalho quando ela estava com 1 ano e 7 meses. Nesse momento eu já não suportava mais o papel exclusivo de mãe/esposa e me sentia deveras sufocada e limitada nesses papéis. Então, voltei ao mercado. Mas voltei a trabalhar em um ritmo diferente, por menos horas, e o melhor: fazendo o que eu mais gostava: de volta à tevê e pra falar de Saúde. Finalmente o tempo distante da minha filha serviria a mim, como mulher e profissional, e a ela: sim, porque eu passei a me sentir muito mais feliz podendo exercer outros papéis e isso fez um bem enorme à nossa relação. Vieram outros desafios: viajar a trabalho, por exemplo. Eu sempre achava que ela desmamaria naturalmente por conta das viagens, mas isso realmente não aconteceu. Passei por situações como estar em um evento e ter que sair correndo pra ordenhar no banheiro ou o peito vazar enquanto estou filmando… rs Enfim, adaptações. Sempre levei com muita naturalidade a coisa de conciliar profissão e maternidade, apesar de ser bastante cansativo acordar em média três vezes por noite e levantar cedo pra trabalhar.

Terceira crise: separação

Valentina estava com dois anos e eu estava exausta. Era trabalho, casamento, filha, uma cidade diferente e somente minha irmã mais nova por perto. Amigos ainda eram poucos realmente próximos (me mudei pro Rio quando casei, em 2009). A essa altura, eu comecei a querer que ela desmamasse. Eu estava super feliz por ter chegado a dois anos de amamentação, tempo recomendado pela Organização Mundial da Saúde. Ela era uma criança super saudável, que raramente adoecia. Achava que meu papel estava cumprido e suficiente. Porém, o contexto da relação entre mim e o pai dela já não era bom há algum tempo. Quanto mais a gente se desentendia, mais ela grudava no meu peito. Eu li coisas sobre desmame e comecei a tentar, mas acho que naquele contexto de brigas, era o único momento em que ela se sentia plenamente segura, então, eu achei que seria muito dolorido pra nós duas um desmame conduzido. Além do que, na minha cabeça, eu precisava me dedicar àquele processo de separação. Não tinha condições emocionais de tirá-la do peito. E assim foi. A separação ocorreu. Saí de casa com mala, cuia e uma criança de dois anos pra dar conta. Amamentei chorando nessa fase por inúmeras vezes. Não é o ideal, é claro, mas assim foi acontecendo. Nessa fase, ela já conversava comigo e eu explicava que não estava bem e que às vezes eu não queria que ela mamasse. Ela entendia. E foi também nessa fase que eu entendi o quanto foi lindo amamentar até minha filha poder falar porque o primeiro “eu te amo” dela veio assim: ela estava mamando, parou, pegou no meu rosto, e disse: “MAMÃE, EU TE MAMO” (pausa para muitos risos afogados de lágrimas). rsrsrs Acho que a coisa mais linda da amamentação prolongada é quando a coisa já está tão naturalizada que a criança pode verbalizar o que sente. Foi incrível.

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Decidi deixar acontecer

Então, eu desencanei de desmamar. Por mil motivos: eu tinha que estar bem, eu tinha que cuidar sozinha de uma casa nova e uma criança, eu tinha que trabalhar, eu tinha que enfrentar novos (e muitos) problemas. E também eu pensei que já que o parto não havia sido natural, iria deixar a amamentação e o desmame ser. Eu não precisava de mais uma coisa pra me preocupar. Aliás, o desmame era a última das coisas que me preocupava naquele momento, pois o divórcio não estava correndo numa boa e tive que lidar com situações de crise gravíssimas. Fora que lidar com a desconstrução de paradigmas é um desafio ainda hoje. Porque, apesar das separações já não serem lá novidade, as pessoas ainda têm muito preconceito com mães solteiras. E no meu caso, eu ainda tive que lidar com toda a violência que sofri em variados formatos por ter sido eu a escolher me separar. “Não foi você que quis? Agora agüenta”.

Quando você se torna mãe, parece que automaticamente, você deve virar uma santa heroína que coloca a casa e a filha em primeiro lugar. Não tem vida afetiva, não tem vida sexual, não tem vida profissional. Foda-se, você virou mãe.

Eu sempre rejeitei esse lugar de mulher-maravilha e sempre deixei claro que antes de ser mãe, eu já era uma pessoa completa. Segui amamentando, mesmo brigando por um ano pela guarda compartilhada dela. Foram muitas negociações. Ouvi outras tantas coisas nessa fase até tudo ir se consolidando. Eu queria que ela ficasse mais com o pai para que eu pudesse ter o direito de viver a minha vida também: sair, ver gente, namorar, estudar… DORMIR. Eram tantas as coisas que eu acabei suprimindo nos últimos tempos…

E em meio a tudo isso, Valentina seguiu mamando e, quando os conflitos foram diminuindo, espontaneamente ela começou a desmamar. Com três anos, ela passou a pedir menos o “peitão”, a dormir a noite toda e a passar pouquíssimo tempo no seio. Meu leite foi natural e gradativamente reduzindo (o corpo realmente se adapta a tudo com naturalidade).

Achei lindo que, com a separação, ela criou uma dinâmica para quando eu estivesse ausente (na casa do pai ou de outras pessoas) que incluía o carinho e as massagens nas costas em vez do peito. Então, nos últimos tempos ela vinha pedindo para eu fazer “o mesmo que o papai” pra ela dormir. E eu fui fazendo. No fim, fico satisfeita que ela desmamou ao mesmo tempo que fortaleceu o vínculo com o pai.

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Amamentação é mais que alimento

Eu ouvi muitas vezes que não tinha mais necessidade de amamentar. “Nossa, mas com esse tamanho?”, “olha, ela pode ficar com problema na fala”, “mas ainda tem leite aí dentro?”, “essa menina vai ser mimada”, “esse leite não serve mais pra nada”.

Pois bem. Em quatro anos, é óbvio que adquiri expertise  na arte da cara de alface. Não tinha mais paciência pra explicar pras pessoas que as crianças podem mamar o tempo que quiserem e que as mulheres precisam ter liberdade pra escolher amamentar ou não. Incluindo o tempo que isso será viável pra ambas. Não acho que sou mais ou menos mulher por ter amamentado, nem me sinto menos mulher por não ter parido. Ninguém tem obrigação de amamentar ou de parir, nada disso pode ser compulsório. Apenas fiz o que me foi mais cômodo. Eu sabia que não faria mal a ela, ao contrário. Li bastante, me informei com os estudos mais atuais sobre o assunto e trabalhar numa das mais renomadas instituições científicas do mundo (Fiocruz) me deu bastante tranqüilidade pra seguir. Sem contar que a lata de leite é caríssima e eu estava em crise financeira pós-separação. Sem contar também que eu sempre morri de preguiça de fazer mamadeira (até hoje não sei) e ela sempre dormiu em cinco minutos mamando. Então, essa dinâmica era a mais viável pra mim. Amamentei deitada por muito tempo, dei peito em público a despeito das caras feias das pessoas e abusei da liberdade de – não só alimentar – amar minha filha de um jeito que só eu sei amar. Quando alguém diz que o leite não está alimentando mais, eu sempre fico com preguiça de explicar porque amamentar pra mim sempre foi muito mais do que isso. O que eu pude promover a nós duas por esse período com certeza refletirá em toda a nossa vida.

Ela ficou mal acostumada sim. E ela vai ser terrível. Porque ela aprendeu que nosso corpo tem poder e ele é nosso. Aprendeu que podemos ter autonomia sobre ele. Valentina viaja sozinha, conversa sobre tudo e não tem problemas na fala por causa da amamentação prolongada, ao contrário, ela fala pelos cotovelos. É muito confiante de que pode ser quem quiser e ir pra qualquer lugar, mas que “o seio” de onde ela partiu, estará aqui – mesmo que simbolicamente.

O apego que eu quero promover com ela é o apego da segurança emocional. Eu quero que ela seja autoconfiante a ponto de ser totalmente livre. É o apego para o desapego. Penso que uma criança sem carências emocionais pode ser uma criança mais segura.

Será que vai dar certo?  Não sei. Não tenho pretensão de saber ou de ser referência. Também não sei se realmente esse meu plano audacioso de “ser livre” pra mim e pra ela será concretizado, mas eu tenho plena consciência que o melhor a se fazer é deixar que as coisas aconteçam naturalmente e que, se preciso for, teremos que brigar com muita gente pelo caminho para nos impor. Aliás, a amamentação me ensinou a brigar muito bem. Não é só a Valentina que está mal acostumada com isso.

O que eu desejo é que ela tenha consciência de que pode fazer escolhas pra vida dela. Quero que ela saiba que tudo que somos é o que construímos e que esse nosso vínculo continue sendo fortalecido pra além da amamentação. Que o meu amor por ela tem vários formatos e que o corte precoce do primeiro cordão umbilical tenha sido apenas um aprendizado. Que tudo na nossa vida venha em cortes suaves e gradativos. Que as inevitáveis separações não sejam mais tão traumáticas. E que continuemos aprendendo, a cada corte simbólico desse cordão infinito que é a maternidade e a vida.

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*Ellen Paes é jornalista e atua há quatro anos na área da Saúde Pública.
É balzaca, feminista, ativista, repórter, verborrágica e tem um sonho audacioso: ensinar sua filha que ela pode ser quem ela quiser.

Está aprendendo junto com ela que também pode ser livre.

Anda em eterno processo de desconstrução e reconstrução. E a maternidade tem grande parcela de culpa nisso.

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4 comentários em ““Amamentar é natural, mas não é fácil”

  1. Lindo relato, Ellen! Espero que ele sirva para derrubar mitos e estimulem futuras mães a amamentarem seus filhos e a se inspirarem no “meu corpo, minhas regras”.

    Não sou mãe, acho lindo o ato de ser mãe, todo seu relato é emocionante, mas nunca tive a vontade de viver isso, até agora, pode ser que amanhã eu mude de ideia e, claro, esta decisão minha tb não é encarada da melhor forma pela sociedade, mas mesmo sem amamentar tenho descoberto que “minha vida, minhas regras”.

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  2. Que relato lindo e cheio de amor! “Acompanhei” essa história linda e vibrei muito com cada capítulo! Valentina é uma garotinha linda de sorte. Ô mãe arretada de boa, essa! Parabéns, Ellen! Muita saúde e luz pra vc! Viva!

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  3. Lindo, lindo, lindo!!! Parece que você está relatando a minha relação com meu filho… tb não pari, por achar que isso seria natural (infelizmente não foi) e amamentação me fez superar essa frustração. Escuto todas as frases que você escutou quase que diariamente e a cara de alface vai se aperfeiçoando. Obrigada por me emocionar com seu relato e me fazer lembrar exatamente da primeira mamado do meu filho… sensacional!!!

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