Sem exagero, é violência (obstétrica)

Eu amo brincar de casinha: decorar, arrumar,  organizar, cuidar e limpar (aleatoriamente).

Muitos blogs me inspiram e tenho uma lista no meu navegador com o nome Blogs de Decor.

Consta lá o da blogueira Marcela Aureliano. Ela é uma ex-advogada que mergulhou fundo no mundo da criação.

Marcela é de Manaus e em maio nasceu seu primeiro filho, Lorenzo, vítima de um sistema despreparado (?).

Tudo planejado para o parto domiciliar, mas ela precisou ir para o hospital ainda em trabalho de parto.

A história, ela me permitiu compartilhar, pois acredita que as pessoas precisam saber que existe a violência obstétrica. “Temos que lutar contra isso”, reforça.

Olá, a história que vocês irão ler abaixo é apenas um desabafo de uma mãe que, por um tempo, sentiu-se envergonhada em compartilhar um momento tão íntimo… mas não só envergonhada, culpada também! Sim, é assim que o nosso sistema de saúde deixa centenas de mulheres todos os dias. Envergonhadas, culpadas, fragilizadas, com uma estranha sensação de que algo está errado. E assim ficamos durante anos, caladas e remoendo uma dor solitária.

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Faz exatamente 3 meses desde que tudo aconteceu… esse foi o prazo que dei a mim mesma para poder falar sobre o assunto. Precisava desse tempo para poder cuidar do meu filho com tranquilidade e paz. Precisava curar a minha alma, ajustar os pensamentos e focar todas as minhas forças em meu filho. Mas eu não quero apenas falar. Também quero agir! Buscar a justiça e espalhar para o mundo o que vem acontecendo com milhares de mulheres todos os dias. Começar a escrever esse relato será muito difícil, não sei se conseguirei em apenas um dia, mas preciso expor essa triste história para poder trabalhar esses sentimentos dentro de mim.

Com 39 semanas de gravidez tudo já estava pronto para o dia da chegada de Lorenzo. Banheira para o parto, malas prontas para o caso de alguma emergência e termos que acionar o plano B, que seria o hospital; comidinhas especiais na geladeira para eu me alimentar durante o trabalho de parto. Enfim, a casa estava preparada para um parto domiciliar planejado.

Era madrugada do dia 6 de maio quando comecei a sentir algumas coisas estranhas. Minha DPP  era para o dia 12 de maio, mas os sintomas davam a entender que Lorenzo não iria esperar muito para chegar. Acordava constantemente para ir ao banheiro e, por um momento achei que estivesse comido algo estragado. Até então não sentia contrações fortes e nem passava pela cabeça que eu estava entrando em trabalho de parto. Mas as 5:00h da manhã o famoso tampão finalmente resolveu aparecer. A partir desse momento as contrações começaram. Que felicidade senti. Finalmente iria conhecer meu filho! Estava tranquila, pois sabia que um trabalho de parto dura horas e, as vezes, dias.

Minha primeira reação foi enviar uma mensagem para a minha doula avisando o ocorrido. Logo depois acordei meu marido, que pulou da cama e  foi encher a banheira que estava na sala. Nos abraçamos e sorrimos que nem bobos, estávamos ansiosos para a chegada do nosso filho. Minha mãe, que estava dormindo, acordou com o barulho que fazíamos. Acendeu alguns incensos e preocupava-se com as músicas que iria colocar durante o parto.  Todos estavam se  preparando para a chegada de Lorenzo.

Ainda cheguei a dizer ao meu marido:

– Não precisa encher a banheira agora, vai demorar para as contrações aumentarem!

Mas ele não me escutava e enchia a banheira freneticamente. As 5:40h resolvi tomar um banho e me preparar para a chegada da minha doula e da equipe que viria depois. Havia contratado dois enfermeiros para acompanhar o parto. Mas as contrações aumentavam com uma velocidade enorme. Comecei a achar que o mantra que eu fazia todos os dias, para ter um parto rápido e tranquilo, iria se concretizar. Resumindo: não consegui tomar banho e nem marcar o tempo das contrações. As dores já estavam insuportáveis e a única coisa que eu queria era meu marido massageando a minha barriga sem parar.

Por volta das 6:40h minha doula chegou e logo viu que o meu trabalho de parto já estava bastante avançado. Uma contração atrás da outra, dores intensas. Onde está a equipe, pensei!  Por que não chegaram ainda? Todos estavam empenhados em entrar em contato com os enfermeiros. Minha mãe, meu marido e a doula tentando falar com eles e nada. Nenhum celular atendia. Nessa hora eu já não ouvia quase nada, estava entrando num mundo paralelo das dores do parto. Lá no fundo, como um eco, eu escutava minha mãe dizer:

– Que irresponsabilidade, no dia mais importante eles não atendem o celular!!!!

Não queria me estressar e mergulhei fundo nesse mundo que chamam de “Partolândia”. Infelizmente essa minha viagem foi interrompida, sabiamente, pela minha doula, que com uma voz doce e triste disse:

-Marcela, precisamos monitorar esse bebê. Seu trabalho de parto está muito avançado e temos que escutá-lo. Infelizmente não conseguimos entrar em contato com os enfermeiros. Sugiro irmos para um hospital para fazermos a escuta. Depois voltamos para casa.

Essa era a ideia, voltar para casa logo depois…

Fomos para o INSTITUTO DA MULHER, hospital que diz ser referência em parto humanizado em Manaus. Durante a gravidez fui fazer uma visita nesse hospital para saber como eram realizados os parnos normais lá. Recebi uma aula de humanização, até mostraram uma sala especial para os partos humanizados. Era uma sala reservada, com banheiro e alguns equipamentos. Fiquei mais tranquila quando soube disso tudo e, apesar de ter plano de saúde, achei que aquele hospital público estava bastante avançado no que diz respeito a humanização do parto. Por isso resolvi, que caso necessitássemos de um plano B, o hospital seria o INSTITUTO DA MULHER.

Sabe aquelas cenas de filme, onde a mulher chega no hospital gritando de dor, já parindo? Pronto, era eu! Colocaram-me numa cadeira de rodas e me encaminharam para fazer um exame. Lembro das pessoas me olhando e cochichando, algumas rindo e fazendo desdém do meu estado. Levantei da cadeira para entrar na sala e foi nesse momento que a bolsa estourou. Senti aquele líquido escorrer pelas minhas pernas e queria olhar a cor que ele tinha. Estava ótimo, sem presença de mecônio. Que maravilha, pensei!

– Querida, não temos o dia todo aqui. Deite na maca para fazer o exame! Disse a auxilar/enfermeira.

No meio de uma contração ainda tive forças para pedir um pouco de calma, que ela esperasse a contração terminar para eu subir a escadinha e deitar na maca.

– Não dá para esperar, suba logo, suba, vamos!!!!

– Moça, não consigo, tenha um pouco de paciência!

Minha doula, sempre gentil, tentava contornar aquela situação e me proteger de qualquer ameaça de estresse e desentendimentos que eu pudesse presenciar.

A voz daquela mulher já estava ecoando nos meus pensamentos. “Vamos logo, deite! Não dá para esperar, vamos!” E assim começou o primeiro, dentre os vários absurdos que irei relatar nessa triste história. A partolândia havia ficado em casa e desde o primeiro momento em que pisei naquele hospital, tive que lutar contra tratamentos desumanos, grosserias, despreparo de profissionais e, pela primeira vez, pude sentir o que quer dizer Violência Obstétrica.

-Cale a boca, eu vou esperar a contração passar e só assim irei subir essa escada!

Só consegui pronunciar essa frase. Finalmente silêncio, era tudo o que eu queria. Subi aqueles dois infinitos degraus, abri as penas na frente de umas 7 mulheres, algumas com seus maridos, a porta da sala aberta (isso era so um detalhe) e recebi o meu primeiro toque, dentre muitos que ainda viriam.

E lá estavam os meus 8cm de dilatação. Como pode? Só estou em trabalho de parto há apenas duas horas! Eu teria um parto rápido e tranquilo. Que bom! Mas eu não voltei para casa. Fui encaminhada para a sala de parto, uma espécie de produção em série, onde vários leitos minúsculos, divididos por uma cortina, separavam uma mãe da outra. Não lembro quantas macas tinham naquela sala grande e gelada. Eram muitos e num deles eu fiquei. Nesse momento estavam comigo meu marido, minha mãe e minha doula. Queria ir para casa, queria o meu ninho, as minhas coisas, a minha banheira que comprei com tanto carinho… me sentia desprotegida.

Colocaram uma bata em mim e pediram para eu ficar deitada na maca. Impossível! Naquele momento nem sentar eu conseguia, deitar era impossível. Só se fosse de quatro. Mas de quatro não era permitido. Saí da maca e me agachei. Meu marido me ajudava nos agachamentos. Nesse momento eu já não raciocinava direito, as dores eram insuportáveis e eu confiava no meu marido para me segurar nos momentos que precisava. Os agachamentos eram feitos na frente de todos os transeuntes do hospital. Profissionais e não profissionais. Quem passasse por ali viria uma mulher semi nua, dilatada e quase em transe. E lá estava eu e meu marido, andando no meio das pessoas enquanto eu me agachava entre uma contração e outra. Procurava me concentrar, mas era quase impossível com tantos olhares observadores.

O segundo toque aconteceu logo quando cheguei nessa sala. Não lembro quem fez, se homem ou se mulher. Apenas lembro de algumas pessoas na minha frente (talvez fossem estudantes). Abriram a cortina, que me separava das outras mulheres e novamente outro toque. 8cm! Claro que seriam 8cm, eu tinha acabado de receber um toque dolorido assim que cheguei, por que receber outro logo em seguida? Nunca ouvi falar em dilatação por minuto.

Várias outras mulheres estavam em trabalho de parto quando cheguei, podia ouvir os seus gritos. Tentei me concentrar apenas nos meus, mas era difícil.  Minha doula perguntou se eu queria ir para o chuveiro. Claro!!!! Uma água quente deve amenizar um pouco as dores e essa é uma grande verdade. Não lembro como era o banheiro, apesar de todo esse desconforto eu ainda tentava me concentrar nas dores do meu parto. Lembro apenas dos azulejos brancos e que a água do chuveiro respingava por todos os lados, menos em mim. Algumas gotas caiam na minha lombar, o que era maravilhoso.

Queria ficar naquele chuveiro até ter o meu filho. No banheiro não tinha ninguém, havia silêncio e aquela água quente, por mínima que fosse, me acalmava. Esse foi o único momento só meu. Olhava para a minha doula e chorava, queria carinho, palavras de incentivo, queria que as dores passassem. “Você vai conseguir Marcela, dói, dói muito, mas são essas dores que trarão o seu filho. Concentre-se nela e tudo vai fluir.” Infelizmente as palavras da minha doula eram interrompidas constantemente por uma enfermeira que abria a porta do banheiro para dizer que no chuveiro só poderia ficar 5min. Chorei ainda mais porque eu não queria deixar a água, precisava dela, ela cobria o meu corpo e me anestesiava, me dava forças. Ali eu estava segura.

– Quem mandou você molhar o cabelo!? Disse, aos gritos, a enfermeira, que pela milésima vez abria a porta do banheiro e me expunha nua e agachada para todo o hospital ver.

Era proibido molhar o cabelo. Por que? Eu não sei até hoje. Talvez porque não pudesse entrar na sala de cirurgia de cabelo molhado.

– Mas é impossível não molhar o cabelo com esse chuveiro, a água vai para todos os lados, ele tá entupido!

Não sei de onde a minha doula tirava tanta calma para responder a tantas grosserias que aqueles “profissionais” diziam. “Marcela, não entre em conflito com ninguém do hospital.” Essa era a frase que ela mais dizia. Qualquer uma daquelas pessoas poderia ser a que fosse fazer o meu parto. Por isso tínhamos que ter bastante cuidado com o que fazíamos e dizíamos. Até nisso deveríamos pensar e ser cautelosos.

Aos pratos saí do chuveiro, parecia uma criança, cujo doce haviam me tirado. Apesar de tudo, aqueles 5min foram maravilhosos. Queria voltar, mas eu já havia ultrapassado o tempo permitido. Para piorar meu cabelo estava molhado. Algo extremamente proibido naquele lugar.Voltei para o meu espaço privado de 4m². O lençol que haviam colocado na maca já estava todo sujo de sangue, fezes, vômito e todos os outros líquidos que havia saído de dentro de mim. Lembro que minha mãe pediu para trocar, mas não era possível. Eu me debruçava nesse lençol e segurava a calça do meu marido enquanto mordia o tecido. Virei um bicho revoltado com aquela situação e já totalmente desconcentrada do meu parto.

Logo após sair do chuveiro expulsaram a minha doula da sala. Disseram que o paciente só poderia ter um acompanhante e eu tive que escolher entre ela e o meu marido. Como não ter o meu marido no momento mais importante das nossas vidas? Como ficar sem a presença da minha doula, da única pessoa que estava me orientando, me dando forças psicológicas e me protegendo daquele local? Chorei ainda mais com a ausência da minha doula. Esse foi um dos momentos mais difíceis, o da escolha impossível…

O terceiro toque aconteceu logo em seguida. Dessa vez um outro médico. Desse eu me lembro, pois assim que ele abriu a cortina e perguntou a minha idade, proferiu a seguinte frase:

– Você sabe que será muito difícil o seu parto não é? Você tem mais de 30 anos e mulheres com mais de 30 anos não devem ter parto normal. Só cesárea! Não era nem para você estar aqui. Além do mais o bebê ainda está muito alto, vai demorar esse parto. Você está fazendo tudo errado, tem que ficar deitada, de barriga para cima e de perna aberta. Você tá empurrando seu bebê para dentro.”

E lá foi mais um toque e algumas palavras de incentivo daquele “profissional.”

Ele escutou os batimentos cardíacos do bebê e tudo estava bem.

Já eram mais de 13h da tarde e eu ainda não havia comigo nada desde o dia anterior. Estava exausta, fraca, cansada e com muita fome.  Minha última refeição tinha sido no final da tarde. Pedi comida, que me foi negada. Pedi um suco e também foi negado. Minha mãe, que era médica, pôde ficar na sala e procurava dentro da bolsa dela algum bombom que pudesse me dar. Por sorte ela tinha uns sachês de mel. Lembro apenas do meu marido colocando o mel na minha boca e dizendo para engolir.

Colocaram soro em mim, mas a agulha saia constantemente do lugar devido aos meus movimentos. Como se já não bastasse as dores do parto, ainda tinha uma agulha furando o meu braço o tempo inteiro. O sangue começou a escorrer do meu braço e eu fazia força para arrancar o soro. Desisti de pedir para tirar o soro e me conformei com aquela agulha rasgando meu braço.

– O maravilhoso médico que disse que eu não poderia ter parto normal devido a minha idade, 32 anos, foi o mesmo que quis aplicar ocitocina em mim.

-NÃO QUERO!!! Não quero ocitocina, não há necessidade. Minhas contrações estão muito intensas, uma atrás da outra. Em duas horas cheguei há 8cm de dilatação. Já estava com 9cm!!!!

– Assim fica difícil, tudo que eu peço para você fazer, não faz. Você não vai ter parto normal assim, disse o médico revoltado!

Uma segunda escuta foi feita e dessa vez foi mais demorada. Os batimentos estavam bem, mas logo após uma contração houve uma baixa e o médico disse que meu bebê estava em sofrimento. Mas eu vi que os batimentos haviam se regularizado. Como saber? Como confiar? O desespero de que alguma coisa pudesse acontecer com meu filho desviou toda a minha concentração. A fome, o cansaço, o desconforto, a exposição, os toques, tudo isso fazia parte do momento mais importante da minha vida. Foram 9 meses estudando e me preparando para um parto humanizado e saudável. Foram 9 meses participando de rodas de gestantes, lendo livros, fazendo exercícios respiratórios e mais uma infinidade de outras coisas que iriam me ajudar no dia tão esperado. Como um pesadelo eu estava semi nua, com pessoas me observando de todos os lados, com fome, frio e sede, sentindo as dores do parto. Naquele momento eu só sentia as dores, não sentia o que elas representavam, o bem que elas me faziam. Que inversão de pensamentos.

Às 14h meu corpo já não obedecia uma mente cansada e revoltada. As lembranças a partir desse momento são como flashes que vão e vem na minha mente. Comecei a ter delírios… e a sentir que eu iria desmaiar. As contrações já não vinham apenas com dor, mas com uma vontade involuntária de fazer força. Já não conseguia mais ficar agachada, pois eu estava muito fraca. Resolvi ficar de joelhos e fazer dos pés da maca apoio para a minha cabeça. Estava exausta… um sentimento terrível de solidão tomou conta de mim… queria a minha doula, a minha força externa. Fechava os olhos e não conseguia acreditar no estado em que eu me encontrava. Eu estava vivendo um pesadelo no dia mais feliz da minha vida. Sentia-me humilhada, envergonhada, triste e, o pior de tudo, com uma sensação terrível de culpa. É assim que eles nos fazem sentir, culpadas! Como se nós, mulheres, fóssemos fracas e incapazes por natureza. Tiram da gente todas as nossas possibilidades de ter um parto tranquilo e concentrado, tiram a nossa auto estima, a nossa crença em nós mesmas. Havia chegado no meu limite…E foi ali, no chão do hospital, de joelhos, que pedi uma cesárea.  Queria apenas que tudo aquilo terminasse…

A cirurgia já tinha sido indicada antes mesmo do meu marido ir falar com o médico.

Fiquei por cerca de 10 minutos deitada na maca no corredor do hospital a espera da liberação da sala de cirurgia. Minha mãe, que é médica, pediu para acompanhar a cirurgia e disseram que apenas uma pessoa poderia entrar, neste caso o meu marido foi acompanhar. Pelo menos era o que achávamos que aconteceria.

Durante os 9 meses de gestação me preparei psicologicamente para o caso de uma cesárea. Mas uma cesárea com indicações contundentes e necessárias. Lá estava eu, na sala de cirurgia… Há algumas horas atrás meu parto tão sonhado estava fluindo com tranquilidade no aconchego do meu lar. Jamais eu poderia imaginar passar por tudo o que passei. Infelizmente os absurdos dessa triste e real história não terminam por aqui, uma segunda etapa começava.

Assim que entrei na sala de cirurgia, com dilatação total, pediram para eu ficar sentada e receber a anestesia peridural. As contrações estavam muito fortes e pedi para aplicar quando passasse a dor. Fiquei sentada e, mais uma contração, a mais forte que havia sentido, veio assim que sentei. Na procura de algo para me agarrar e de um consolo que fizesse amenizar as dores, involuntariamente abracei o médico que estava na minha frente. Abracei com toda a minha força, disse que estava doendo, chorei porque não queria estar na sala de cirurgia. O médico foi pego de surpresa e o abraço não foi recíproco. De braços abertos ele ficou e logo em seguida vieram as risadas. Todos riram de mim, como se aquele meu pedido desesperado de consolo fosse motivo de piada. Logo em seguida veio a frase que nunca mais irei esquecer. “Calma, senhora, ele é bonito, mas não é pra tanto!” Risos e mais risos…

Por alguns longos segundos desejei morrer, esqueci que iria ter um filho, queria apenas desaparecer e acordar daquele pesadelo que se prolongava por tanto tempo. Queria a minha doula, o meu marido, a minha mãe. Mas aonde estava o meu marido? Só depois que deitei, após terem aplicado a anestesia, foi que percebi que meu marido não estava na sala. “Aonde está o meu marido¿” por diversas vezes eu perguntei aonde ele estava e ninguém respondia. Até que uma enfermeira disse que ali não podia entrar mais ninguém e que não existia esse “negócio” de acompanhante. Na sala de parto tiraram a minha doula e na sala de cirurgia o meu marido. Aos poucos aquele hospital foi me tirando tudo o que eu tinha. Tiraram minha tranquilidade, minha harmonia, minha auto estima, minha coragem, minha intimidade e, finalmente a minha família. Estava só, no momento que seria o mais feliz da minha vida. E foi um dia feliz, pois apesar de tudo, saber que meu filho iria nascer e escutar o seu choro fizeram o meu coração pular pela boca. Ao escutar o seu chorinho senti o meu sangue ferver, a respiração tomar conta de mim e a minha mente explodir de adrenalina. Eu estava anestesiada de amor e alegria. Era a voz do meu filho, meu filho tão esperado e amado. Queria sentir a sua pele, abraçar, beijar, lamber minha cria. Queria olhar para ele e dar as boas vindas a essa terra que o estava acolhendo.

Como que num relance a médica levantou o meu filho e o levou para outro lugar. Não me deixaram ver, tocar, ouvir, tampouco sentir o coração do meu filho bater forte. Arrancaram ele de mim e o levaram para bem longe. “Onde está o meu filho, onde está o meu filho????” Aos prantos eu suplicava por ele, queria vê-lo! Pediram para eu calar a boca, pois ele estava bem, que era procedimento do hospital e que logo mais ele estaria comigo, limpo e vestido. Ainda chorando, pedi, pela última vez, para ver meu filho. Irritada, uma pessoa da sala pronuncia a seguinte frase: “Pra quê você quer ver o seu filho se você não pode nem se mexer?”

E foi assim que meu filho chegou ao mundo, mais uma vítima de uma violência velada, uma violência silenciosa, que acontece todos os dias com centenas e milhares de mulheres nesse mundo. Logo comigo, pensei! Por que isso foi acontecer comigo? Eu que sempre fui tão engajada na militância do parto humanizado, eu que me preparei, antes mesmo de engravidar, em como proporcionar um parto tranquilo e humano. Li livros, estudei, convenci a minha família, participei de passeatas, preparei a minha casa… Tudo em prol dessa mudança que acredito que vai acontecer. Logo eu fui mais uma vítima. Arrancaram o meu sonho, o meu momento o nosso momento. Meu, do meu filho e do meu marido. Os três separados pelo sistema falho e ignorante. Cada um no seu mundo, na sua sala, nos seus pensamentos… Cada um com a sua dor.

Ainda fui obrigada a passar 3 dias e três noites nesse terrível hospital, cujo relato desses dias de horror deixo para um próximo texto, que farei questão de escrever com todos os detalhes. A verdade é que, em meio as baratas e as grosserias de vários enfermeiros, que fazem parte desse hospital, passei momentos difíceis e, quase que fugida, deixei o hospital numa sexta-feira de lua crescente sem ter, ao menos, um registro fotográfico do dia em que meu filho nasceu. Triste contradição para quem é casada com um fotógrafo profissional.

Ao chegar em casa pude tomar um banho decente. Ainda tinha resto de sangue do meu trabalho de parto pelas minhas pernas. Os meus pensamentos rondavam a minha mente. Revolta, indignação, tristeza… muitos sentimentos ruins juntos. Esfregava o meu corpo com toda força, numa tentativa em vão de limpar minha mente daquelas lembranças. Uma sensação estranha de que eu tinha sido estuprada começou a tomar conta de mim. Será que é assim que uma mulher estuprada se sente? Haviam tirado de mim o momento mais lindo e sublime que uma mulher pode ter. Me maltrataram, me chamaram de incapaz e ainda pediram para eu calar a boca. Eu estava sendo violentada e tinha que ficar calada. Tive medo!

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