Relato de parto – “Assenti com a cabeça, neguei com o coração.”

A Mel Naves, do blog Mamãe Duas Vezes, é psicóloga e tem 27 anos.

Quando li seu relato do parto (VBAC), entrei em contato para pedir autorização e assim poder compartilhar aqui.

Desde que mergulhei nesse mar de informações, não me canso de ler, ouvir e assistir tudo sobre a partolândia.

Acredito que muitas outras Carolinas, Anas e Marias estejam assim como eu: apaixonada pela causa.

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Mel, esperando Isabela e Valentina, respectivamente.

Pensei muito em escrever ou não o meu relato de parto, porque ô coisa que vira polêmica falar de parto!  Nem discussão política possui debates tão fervorosos!! Acho que ambos os lados (isso nem deveria existir!! Lados?! Estamos nós mães em uma disputa?) acabam exagerando nas suas convicções.

Começo dizendo que verdadeiramente respeito qualquer via de parto, seja normal, natural, humanizado ou cesária. Não acho que isso determine o valor de uma mãe, mas acredito que não há escolha sem conhecimento. Por isso gestante, se informe, seja crítica e não aceite verdades em um potinho.

Impossível falar do meu parto natural sem falar um pouco do meu parto cesária, o qual trouxe ao mundo aquela que mudou minha vida: Valentina! Valentina nasceu no dia 29 de dezembro de 2011 com quase 38 semanas. Eu sempre quis parto normal e achava que se eu quisesse, no fim daria tudo certo! Eu acha que deveria me preparar para a dor, e que o resto se ajeitava. Eu não sabia que no Brasil é preciso lutar por um parto normal.
Eu comecei a ter contrações espaçadas no dia 24 dezembro e desde então ia ao médico todas as manhãs. Nenhum avanço. No dia 29 de dezembro, perdi o tampão mucoso e na consulta obstetra fez uma declaração que me deixou sem palavras: “-Precisamos fazer a cesária, você já está há muito tempo com contrações. Não tem porque deixar você sofrendo tanto tempo!” Eu sem piscar respondi: “-Eu aguento, não tem importância!” Ele contra-argumentou dizendo que na verdade, não fazer a cesária poderia colocar a Valentina em risco. O que eu fiz?! Sem pestanejar disse que tudo bem, que faríamos então a cesária. Eu, com os nervos em frangalhos, não raciocinei que era dia 29 de dezembro. Não tinha o conhecimento de que na verdade eu estava em pródromos e que a Valentina NÃO poderia estar em risco. Fiz o que a maioria das gestantes faria, aceitei uma verdade pronta. E foi assim que minha primogênita veio ao mundo! Não fiquei nem por um segundo triste ou enganada. Sabe por quê? Porque eu achava que a cesária tinha sido necessária, que tinha sido o melhor para ela. Às vezes, a ignorância tem esse benefício.

Grávida da Isabela, assisti o documentário O Renascimento do Parto e tive um clique. Percebi como tinha sido ludibriada às custas da minha ignorância. Decidi que dessa vez quem decidiria a forma que minha filha nasceria seria eu, a mãe dela. Eu queria meu parto normal e conseguiria. Nunca julguei quem decide ter um parto cesária, mas essa não tinha sido a minha decisão e me fizeram pensar que era minha única opção. Percebe a diferença? Me senti lesada, alguém me tirou o direito de realizar um sonho. Sonho é sonho! Ninguém pode desmerecer o sonho de alguém e o meu sonho era ter um parto normal. Li muito, devorei todos os relatos que encontrava sobre VBAC (Via baixa após cesárea ou parto normal após cesárea)

No dia 20 de abril de 2013 comecei a ter contrações. Elas foram recebidas com muito alegria! Isabela estava chegando! As contrações vinham durante toda a noite, ficavam ritmadas e com o nascer do dia iam embora. Eu não estava com nenhuma pressa, mas era bem exaustivo. Comecei a ter consultas diárias, um aviso de que a Isabela era muito grande, dilatação de 1cm sem evolução. No dia 5 de maio de 2014, com 38 semanas e 3 dias perdi o tampão mucoso e fui a consulta diária. Qual foi minha surpresa quando ouvi que estava com contrações há muito tempo, que a Isabela era muito grande e que no dia seguinte ela nasceria de qualquer jeito. Assenti com a cabeça, neguei com o coração. Não, dessa vez ninguém decidiria por mim. Li muito, sabia que um bebê grande e período de pródromo prolongado não era indicação para cesária. Ainda assim, chorei, refleti, parecia que a história se repetiria mais uma vez. Mas dessa vez, arrumei forças para negar aquelaverdade e a noite, no dia que seria a minha cesária fui ao pronto socorro para ser atendida por uma médica que eu sabia que era favorável ao parto normal.

A consulta foi ótima! Esse anjo que me atendeu me tranquilizou, analisou os batimentos cardíacos, contou as contrações. 5 contrações por minuto, 3cm de dilatação. “-Vá pra casa, descanse, está tudo bem com a sua filha, agora é só ter tranquilidade para esperar!” Fui pra casa, despedi do barrigão, entrei debaixo do chuveiro e me preparei emocionalmente pra tudo que viria. Minha vida iria mudar, eu seria mãe de duas!

Contrações com dores suportáveis, 45 segundos. Pensei, ‘é essa a dor do parto?’ Tranquilo! Eu posso aguentar. Noite inteira assim. Chá de canela para ajudar, banho para progredir. Dormir não consegui. As dores eram muito tranquilas, mas o que me incomodava muito era um enjoo persistente que me fez pensar que estava com alguma intoxicação alimentar. Não era, meu corpo estava se preparando! O que eu conseguia era beber muita água de coco, comer frutas com sal (goiaba e manga) e foi isso que me manteve em pé. Eu ainda não estava certa de que estava mesmo em trabalho de parto ativo, pensava que como nos dias anteriores as contrações poderiam parar a qualquer momento. Mas elas não pararam. Foram gradualmente ficando mais fortes e mais demoradas. Às 11 horas uma amiga passou em casa, levou uma bola de pilates e me ensinou uns movimentos que ajudavam muito na dor. Ela foi embora e fiquei com musiquinhas calmas, quarto escuro, massagem do marido; Valentina estava na escola. As contrações vinham, segurava a mão dele, abraçava, sentia o seu cheiro (eita homem cheiroso!). E isso ajudava muito!

Ficar parada nas contrações estava ficando muito difícil. Eu começava a andar, fechar os olhos. Já estavam de 3 em 3 minutos. Eu não quis ir para o hospital porque sabia que o risco de uma intervenção colocaria em risco meu sonhado parto. Ocitocina sintética não era uma opção para mim porque aquele sorinho aumenta muito as chances de uma ruptura uterina. Quando foi por volta de 14hrs, avisei ao marido que era melhor ir para o hospital, porque eu iria ficar parada dentro do carro e agora as dores estavam ficando mais fortes. A permanência no carro foi realmente muito difícil. Você se sente enjaulada na dor, não tem como se libertar sentada em um carro. Imaginei como as mulheres em trabalho de parto sentadas em uma cadeira de roda com o bendito soro se sentiam.

Chegamos no hospital, eu já sentindo muita dor. Hospital público lotado (mais essa! Meu plano por uma incompetência da prestadora não cobriu o parto). “Só vai ficar se estiver nascendo“, falou a médica com cara de poucos amigos. Me levaram para uma sala pequenasozinha com uma maca para fazer o exame de toque. Não permitiram (ilegalmente) que meu marido entrasse comigo. Alegaram que somente se a Isabela estivesse nascendo é que ele poderia entrar. 8cm, “é, tá nascendo” disse a obstetra de plantão, já em um tom mais gentil. “Olha, eu vou estourar a sua bolsa pra ir mais rápido”. Minha bolsa ainda não tinha estourado e talvez nem estourasse neh?! Mas já com dor, deixei, não tive força psicológica sabe? Sabia que era desnecessário! Mas é mesmo muito difícil dizer não em um momento como esse. A bolsa precisa ser estourada durante a contração, você deitada. Sim, isso dói! Dói muito!!! Algo parecido com uma agulha enquanto você sente uma dor que a essa altura estava realmente forte. Todos os meus impulsos de luta foram ativados naquele momento e eu tive que pedi muito a Deus pra não me deixar dar um chute na cabeça da obstetra chega pra lá na obstetra. Eu não sou violenta, mas essa foi minha vontade naquele momento. Dor desnecessária! Pedi por favor para que meu marido entrasse, tudo era tão mais fácil com ele!

Mas ele não entrava! E eu naquela salinha igual um bicho preso. Em tese ainda teriam mais 2 horas pela frente. Eu sozinha, já não tinha como mais fugir da dor, nenhuma posição era confortável. Aquela era realmente a dor do parto! Elas vinham de 2 em 2 minutos e demorava mais de 1 minuto. Uma dica para quem não sabe se está em trabalho de parto ativo: se você tem dúvidas, você não está! A dor da contração é algo memorável! No início é como uma cólica mais forte, mas quando estava com 8cm de dilatação foi uma dor que eu não saberia descrever!

Enfim me levaram para um quarto maior. Ligaram um chuveiro com uma água fria (é, fria mesmo) e me deram uma cadeira de roda para sentar no chuveiro! Tentei, mas não deu não! Não era uma banqueta de parto, era uma cadeira de rodas! Ficar sentada em uma cadeira de rodas era fora de cogitação naquele momento! Senti uma pressão forte, “Ela tá nascendo!”Veio uma enfermeira sem educação e me respondeu com grosseria, dizendo que eu havia acabado de chegar e que ela não estava nascendo não. Graça a Deus meu marido então chegou, durou aproximadamente 40 minutos para ele entrar. Pedi pra ele me ajudar, falei“essas mulheres que querem parto normal são todas loucas“, falei que queria fazer cesária, falei que queria anestesia. Essa é a hora da covardia, já tinha lido nos relatos que quando o bebê está quase nascendo as mulheres querem desistir. Eu nem me dei conta disso, eu só queria dormir, estava cansada daquela dor. Pensei que ainda iria sentir mais uma hora daquilo. Senti de novo essa pressão, falei pra ele que ela estava nascendo. Veio outra enfermeira, segurei a mão dela e falei com toda comoção que podia e disse que queria a anestesia AGORA. Ela disse que eu tinha que deitar na cama para medir a pressão, nossa, mas que revolta que eu fiquei. Não lembro exatamente as palavras, mas disse que eles não estavam entendendo, que minha filha estava nascendo e que não era hora de medir pressão coisa nenhuma! Me fizeram deitar, nem sei como! Sei que quando deitei veio uma vontade de fazer força incontrolável, isso é o que chamam de “puxo”.

Nesse puxo a Isabela veio e voltou! Vieram várias obstetras, porque a gente acaba fazendo aquele urro de mulher sabe? Uma coisa meio animal mesmo!! Um corre corre danado, obstetra olha e fala, “tá coroando”! “Vai nascer aqui mesmo!” De repente passou a contração! A obstetra disse, vamos logo para o centro cirúrgico, doida pra me fazer uma episiotomia! E já vieram com uma cadeira de roda! Falei que não, que eu ia a pé!! (A pé?! Oi?! Hauhauh). Perguntei se era longe, falaram que não, que era só atravessar o corredor. E fomos, eu, meu marido e mais uma renca de gente! Acabamos de passar pela porta do centro cirúrgico e senti a contração chegando! Ela disse, “deita na maca”! Eu, só balancei com a cabeça e falei que não dava! E veio o puxo! Ela disse, faz força! Eu nem escutava nada, seguia meu corpo. Seguia o que a natureza me dizia e ela sabe mesmo o que fazer! Eu em pé, abaixei um pouco e da forma mais primitiva, saiu aquele som que nem se eu quisesse conseguiria reproduzir. Uma das obstetras deitou no chão e foi então que com mais dois puxos a Isabela nasceu! No primeiro sua cabecinha e no segundo seu corpinho. No dia 7 de maio de 2014, 3815kg, contrariando todas a maioria das indicações (falsas) médicas: de que ela era muito grande, de que eu era muito pequena, de que estava com contração a muito tempo, de que eu já tinha uma cesária, de que a cesária era próxima demais. Nada disso impediu que a natureza trabalhasse a meu favor! Isabela nasceu quando quis e eu lutei por isso. Me renovei, renasci! Senti que eu era forte e que eu podia qualquer coisa! Eu tinha conseguido meu parto natural, sem anestesia, sem episio e em um sistema público de saúde. Minha tristeza foi que alegaram que ela estava com a frequência respiratória alterada (óbvio! Parto normal é assim!) e ela ficou durante uma hora sendo observada do meu lado. Mas eu queria amamentar, queria cheirar, queria tocar nela! Mas acho que do jeito que eu queria só um parto domiciliar. Quem sabe em uma próxima vez?

Meu marido ficou tão emocionado! Ele sentiu a força da vida! Virou ativista de parto normal!! Eu senti o nascimento da Isabela como um divisor de águas. Minhas tias, todas com parto cesária, queriam ouvir meu relato de parto. Minha mãe, minha irmã, nenhuma delas sabiam como era um parto normal!  Eu realizei meu sonho.  O parto não era só pela Isabela, mas por mim também! Eu queria viver isso! Eu não queria passar por essa vida sem essa vivência! E eu consegui!! Fiquei orgulhosa de mim mesma!!! Me fortaleci como mãe e como mulher… Eu jamais conseguirei descrever meus sentimentos quando vi a Isabela nascendo de mim. Eu tinha feito o meu parto!

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7 comentários em “Relato de parto – “Assenti com a cabeça, neguei com o coração.”

  1. Amei ler tudo isso! realmente me serve de inspiração! meu baby nasce no final de dezembro, estou lendo muito sobre, só que ás vezes bate aquela insegurança de não ser capaz. Mas vem uma voz que diz: Nós mulheres nascemos para isso! beijos <3

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