O olhar artístico de uma mãe

Uma mulher que desejou um parto normal, avisou a sua médica e no final passou por uma cesárea.

Onze anos depois, ela engravida novamente e resgata o sonho de parir.

E assim, nasceu Raul no mês passado, em um parto domiciliar humanizado.

Itaiana se inspirou na própria experiência materna para retratar sua  história (e de tantas outras mulheres).

Descobri seus desenhos artísticos e a convidei para esta participação aqui no Blog Palavra de Mãe.

O que me chamou atenção foi a temática relacionada à humanização do parto tão bem contextualizada e reflexiva.

Incentivada pelos pais, Itaiana desenha desde pequena (10 anos) e sempre gostou de fazer retratos.

Ela ministra aulas de desenho e utiliza as técnicas de grafite, lápis de cor e giz pastel seco.

Aos 32 anos, já participou de várias exposições com seu trabalho realista e belo.

Sou Itaiana Battoni, artista plástica, moro em Araraquara, sou companheira do Thiago, mãe da Lavínia (11 anos) e Raul (quase 2 meses). Tenho uma família linda!

Quando fiquei grávida pela primeira vez achava que nascer era normal e que para ter um parto normal bastava informar o médico do meu desejo, mas não é bem assim. Ele dizia que faria o melhor para mim e para minha filha, mas no final da gravidez disse que não nasceria de parto normal porque não estava encaixada e era grande demais, marcando assim a cesárea sem ao menos esperar um sinal de que ela estava pronta para nascer. Passei anos inconformada e tentando entender porque era tão difícil ter um parto normal. Até que encontrei grupos de apoio ao parto. Conheci pessoas maravilhosas e entendi o que aconteceu comigo. Veio, assim, a inspiração para fazer desenhos relacionados à maternidade e parto.

O primeiro desenho foi “Mentalize”. Eu mentalizava e sonhava com o parto normal durante a gravidez da Lavínia e continuei sonhando depois que ela nasceu.

mentalize-ita

O segundo “Enrolados”. Foi assim que fiquei, enrolada em mentiras que me contaram, com medo e achando que meu corpo tinha algum defeito.

enrolados-ita

Então veio a ideia de Colher/Acolher, uma representação simples da diferença entre cesárea eletiva e parto natural, uma mão com luva retirando um fruto que ainda não está maduro e duas mãos amparando e esperando um fruto cair.

colher-acolher

Vieram outros, até que desenhei “Cicatriz”. Este representa como me senti após a cesárea indesejada e desnecessária que eu passei. Aliás, eu soube que havia sido enganada assim que minha filha nasceu, quando me disseram o peso e o tamanho do “bebê grande demais para um parto normal” – 2,650Kg e 46cm.

cicatriz-ita

Descobri que o prontuário do hospital pertence ao paciente e que eu tinha o direito de pedir. Eu queria saber o que estava escrito lá, qual era o motivo da cesárea e para minha surpresa não havia motivo. Somente um códico CID 10 082-9 que pesquisando na internet descobri se tratar de “cesárea não especificada”. Desenhei “Motivos” e “Brasil”.

motivos-ita

brasil-ita

Eu queria ter outro filho, mas tinham me falado que uma vez cesárea, sempre cesárea, sendo assim dizia que não engravidaria de novo. Quando descobri que eu poderia sim ter um parto normal busquei informação, tracei meu caminho e engravidei.

Fiz “A Onda”… Uma mulher enraizada, forte e empoderada sustentando suas escolhas e lidando com a contração, a onda.

onda-ita

Durante a gravidez eu não consegui desenhar.

No dia 1º de abril de 2014, o Raul chegou de parto natural domiciliar planejado.

Voltei a desenhar!

“Ocitocina” é o momento que o amor transbordou, o nascimento do Raul e o renascimento da nossa família  e “Pedaço de mim” onde aparece a cicatriz da cesárea e o parto.

ocitocina-ita

pedaço-ita

Acho que todos esses desenhos, na verdade representam o meu caminho, minha busca pelo parto. O desejo que nunca saiu da minha cabeça. Por isso quando me perguntam sobre o tempo de trabalho de parto digo que foram 11 anos.

Minha primeira gravidez foi aos 20 anos, estava cursando Química e a maternidade veio transformar tudo. Cursei mais um semestre após o nascimento da Lavínia, quando o Thiago passou num concurso e foi chamado em Pirassununga. Não demorou muito para eu jogar tudo para o alto e ir também. Abandonei o curso. Não temos ninguém da família e não aguentei ficar sozinha. Lá comecei dar aula de desenho em casa e consegui me dedicar a Lavínia. Foi um ano muito bom, tenho boas recordações. Essa foi a primeira grande transformação que a maternidade me troxe, fiz de um hobby minha profissão!

Depois um ano voltamos para Araraquara e continuei com as aulas. Lavínia foi crescendo no meio dos lápis e papéis, ela é minha amiga, companheira e desenha muito bem!

Após o nascimento do Raul a transformação foi como mulher, eu me sinto mulher de verdade agora e sei que meu corpo é perfeito.

CESÁREA ELETIVA X PARTO NATURAL

Não tem comparação!

Na cesárea, ninguém ao menos se preocupou em me explicar o que estava acontecendo. Passaram a sonda antes da anestesia sem ao menos dizer que faria. Fiquei com as duas mãos amarradas e sozinha, não permitiram acompanhante. Tive hemorragia. Minha filha passou por procedimentos que hoje sei que são desnecessários e doloridos, ficou longe de mim. Senti muita dor depois, mal conseguia andar, tomar banho e cuidar da Lavínia.

O parto eu busquei, me informei, me preparei e planejei. Fui respeitada, tratada com carinho, silêncio, massagens, palavras de conforto, olhares confiantes e respirações tranquilas durante o trabalho de parto. A sensação de parir é de muito poder e realização. Ele veio direto para meus braços e nenhum procedimento foi feito.

Amo meus dois filhos da mesma forma. Consigo separar a maneira que aconteceu o nascimento deles! Quando a Lavínia nasceu eu fiquei muito feliz com a chegada dela, assim como fiquei feliz com a chegada do Raul! A maternidade e o amor não tem relação com a via de nascimento.

A PREPARAÇÃO PARA O PARTO

Comecei a me preparar para o parto antes mesmo de engravidar. Fui em encontros do grupo de apoio ao parto “Nascer Naturalmente” daqui da cidade. Conheci pessoas que tiveram seus filhos em casa. Li muito sobre isso e quanto mais eu li, menos sentido eu vi em ir para o hospital.

Marquei uma consulta com um médico humanizado, disse que estava pensando e engravidar e fiz muitas perguntas, até sobre parto domiciliar. Na saída ele disse: “Fique tranquila, nós falamos a mesma língua”. Gostei tanto de saber disso! Também já estava em contato com a parteira pelo Facebook, acho que começamos conversar por causa do meu desenho “Cicatriz” que na época foi muito compartilhado. Eu falei pra ela que gostaria de engravidar novamente, mas tinha muito medo de não conseguir ter um parto novamente. Ela disse que me acompanharia se eu quisesse e fiquei ainda mais confiante. Já tinha um médico para o pré-natal e uma parteira para o parto domiciliar, só faltava o bebê (risos)!

Depois de alguns meses, engravidei! Foi um turbilhão de emoções. Estava feliz, mas ao mesmo tempo pensava “o que eu fui fazer???”. Tive muito medo de tudo se repetir, mas lembrava de uma frase: “Ninguém entra no mesmo rio uma segunda vez, pois quando isto acontece já não se é mais o mesmo. Assim como as águas que já serão outras” – Heráclito.

Fiz o pré natal em Jaú com o Dr. Braulio Zorzella. Desde o início eu disse que seria domiciliar e a cada consulta uma longa conversa sobre a gravidez, parto domiciliar, trabalho de parto, posições de parto, equipe, plano de parto, recepção do bebê, etc… Foi um pré natal acolhedor e de muito respeito, sem exames de toque, sem excesso de exames e ultrassonografias, sem vitaminas já que meus exames estavam ótimos.

Ao mesmo tempo estava em contato com a parteira Ana Cris de São Paulo. Mandava os resultados dos exames para ela acompanhar o pré natal. Com 25 semanas fui até São Paulo para uma consulta e para combinar tudo sobre o parto domiciliar.

Precisávamos de parteira back up, caso a Ana Cris não conseguisse vir e marquei outra consulta com as parteiras Shirley e Juliana de São Carlos. Escolhi minha doula, minha amiga Mariana Tezini, que já tinha passado pela experiência de um parto domiciliar após cesárea e sabia dos meus medos. Conversei com a pediatra Ana Paula e ela topou vir de Campinas até aqui para o parto. Também fui atrás de um médico back up, caso precisasse de uma transferência para o hospital e novamente mais uma consulta, em São Carlos, com o Dr. Rogério. Tudo certo, equipe formada!

Providenciamos alguns itens para o parto, como a piscina inflável, mangueira, óleo para massagem,lençol de plástico para a cama, lençóis descartáveis, etc.

Ah! Era tudo segredo! Quase ninguém sabia que seria domiciliar, nem nossas famílias. Preferi assim, não queria que ficassem preocupados, achando que era arriscado ou que era loucura. Naquele momento eu não queria ficar explicando nada. Também quis evitar expectativas, já estava difícil ter que lidar com as minhas.

O PARTO

Ainda não escrevi meu relato de parto, mas vou tentar contar um resumo.

Com 40 semanas e 3 dias começaram as contrações. Era meia noite, dia 1 de abril. Acordei o Thiago. Sabia que era pra valer, já estava sentindo desde as 22h. Ele começou marcar o intervalo e a duração das contrações, também fez massagem durante as contrações, foi gostoso esse tempo que passamos só nós dois em trabalho de parto.  Ligamos para a Ana Cris as 5h da manhã e ela veio (pra mim veio à jato)! Perdi totalmente a noção do tempo, parece que tudo acontecia muito rápido. A Mariana chegou um pouco antes da parteira e eu estava no chuveiro, sentada na bola, um alívio. Não sei que horas a Ana Paula chegou.

Inflaram e encheram a piscina com água morna, eu entrei. Estava muito gostoso, consegui cochilar nos intervalos e recebia massagem da Mariana e do Thiago durante as contrações, a Lavínia ficou por perto, lembro dela jogando água nas minhas costas. Dei um grito um pouco diferente e a parteira me perguntou se tinha sido um puxo e eu disse que não. Ela me examinou e eu estava com dilatação total, era meio dia (segundo o Thiago).

Continuei na água, mas as contrações espaçaram. A Mariana e a Ana Cris sugeriram que eu saísse para andar. Andei, agachei, sentei na banqueta, levantei, sentei de novo e nada de sentir vontade de empurrar. Fiquei na banqueta de parto com Thiago sentado atrás de mim, me apoiando e a Lavínia sentada na minha frente. As contrações estavam bem doloridas, eu chorei, disse que não estava conseguindo e estava me sentindo fraca. Todos a minha volta estavam tranquilos. A parteira me olhava no olho, nunca vou esquecer aquele olhar. Ela me dizia que estava tudo bem, que eu estava bem e que estava conseguindo sim. Então, veio uma força muito grande, senti queimar e a cabeça saiu, a força continuou, senti ele girando e o corpo saiu, tudo numa contração só. Chorando, eu disse: eu consegui! Era 15:28 e ele veio para meu colo. Não tem como descrever a sensação de pegar o bebê quente e todo melecado. É delicioso! A Ana Paula o cobriu com uma fraldinha quente. O Thiago chorou, a Lavínia nos abraçou, vimos que era um menino (escolhemos não saber o sexo antes do nascimento) e o amor transbordou. O cordão só foi cortado pelo papai quando a placenta saiu, Raul recebeu todo o sangue que era seu de direito. A pediatra o examinou e pesou e a Lavínia foi quem colocou a roupinha.

Fiz a melhor escolha. Estava no melhor lugar, na minha casa com minha família, eram as minhas coisas (minha cama, meu banheiro, minhas toalhas). Em momento algum senti medo. Foi a melhor experiência que já tive e a certeza que não poderia passar por essa vida sem saber o que era parir. Eu consegui!

Parto em casa não é um ato de coragem, não é loucura, nem moda…

Parto em casa é uma escolha informada, consciente e é segura!

parir-ita

***

Ita, de todos os relatos que li até hoje, só o seu me despertou a sensação deliciosa de como é segurar o bebê quentinho e todo melecado. Como eu te disse, foi mágico. Espero que esse instante seja projetado para daqui a alguns anos quando um dia eu engravidar novamente e mesmo após uma cesárea eletiva possa escolher um parto sem intervenções e com muita ocitocina. Quem sabe até eu também diga: meu trabalho de parto durou 11 anos.

Anúncios

7 comentários em “O olhar artístico de uma mãe

  1. Que emocionante!! Lindo relato Ita…linda história!! Uma experiência dessas é capaz de transformar a vida da gente pra sempre…muito amor pra vocês, muito leite e muitas felicidades!!

    Curtir

  2. Foi muito o intenso para mim… pois vi enviei a mesma experiência, com diferença de que meu segundo filho veio ao mundo na casa de saúde, com o Dr. Rogério… com a Minha filhinha Maria Clara o recebendo tb… Eu não seria a mulher que sou se tivesse permitido que a estória se repetisse…Parabéns! !! E obrigada por compartilhar sua história. ..que é a minha. ..

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s