Relato de um parto domiciliar

flavia-maciel

Olá pessoal! Hoje quero compartilhar resumidamente com vocês como foi a chegada da Bianca!

Para começar, vou me apresentar! Me chamo Flávia, sou ginecologista e obstetra com uma tradicional formação médica. Fiz residência no USP de Ribeirão Preto e logo comecei a trabalhar em maternidades e abri meu consultório. Na minha graduação, tive contato com a humanização do parto por ser aluna do digníssimo professor Paulo Batistuta Novaes, um ser humano sensível que desde a década de 90 já entendia o parto como um evento natural e fisiológico, e parte de seus ensinamentos ficaram em meu coração. Mas, com o tempo, me tornei uma típica GO fofinha, com altos índices de cesárea.

Daí eu engravidei de forma milagrosa, pois tive um diagnóstico de menopausa precoce e teoricamente não poderia engravidar. Mas deus é maravilhoso! Esta gestação terminou em uma cesárea eletiva com 39 semanas por medo de parir, ansiedade e total despreparo, apesar do nível de informação que achava que tinha. Remoía imagens de partos complicados, com desfechos ruins, e para quem não poderia ter filhos, só de imaginar algo ruim acontecendo ao meu, eu me desesperava. Mas, apesar de tudo ter corrido muito bem, a cesárea foi uma grande frustração para mim – foi desconexo! Além disso, na maternidade me separaram do meu bebê por horas e horas, ele não mamou, e depois minha amamentação foi um fracasso. Eu simplesmente não acreditava em mim ou no meu corpo.

Por conta dessa experiência, entendi que deveria haver algo muito errado com a forma como lidamos com a gravidez, parto e pós-parto, tanto a nível institucional, quanto na forma como as mulheres encaram estes eventos nos dias atuais. E o mundo da maternidade me fez conhecer pessoas totalmente diferentes; nos grupos de mães da internet pude perceber como os procedimentos obstétricos que realizamos rotineiramente muitas vezes geram traumas, frustrações e sequelas irreversíveis físicas e emocionais; também conheci mulheres que haviam tido experiências de parto totalmente diferentes, mulheres que haviam parido em casa, que tiveram partos naturais, sem intervenções e o quanto aquilo havia sido marcante como experiência de vida para elas.

Então, conheci o mundo da humanização e tudo fez sentido para mim!

E 10 meses depois deste parto, engravidei novamente e me senti abençoada pela oportunidade de fazer tudo diferente, de reescrever uma história nova na minha família, na minha profissão e além, influenciando meus alunos, colegas e outras mulheres.

Então, virei ativista e grávida e comecei a me preparar como MULHER para parir. Isso quer dizer que fui esquecendo o lado profissional para me encontrar com a minha essência, com o meu feminino, para buscar empoderamento junto a outras tantas como eu, nos grupos de apoio, nas conversas, nos relatos de vídeos de parto.

Depois que assisti, com muita vergonha, o Renascimento do Parto (vergonha por ter pactuado por tanto tempo com esse modelo obstétrico falido e tecnocrata), senti dentro de mim que queria parir em casa. Até para mim admitir isso foi complicado. Imagina uma médica obstetra querendo parir em casa com parteiras??? Mas o desejo foi crescendo, crescendo, e fui construindo esse parto junto com meu esposo, meus amigos e colegas que me apoiaram, e também enfrentando críticas e piadinhas a respeito da minha opção.

E assim no dia 28 de dezembro de 2013, com 39 semanas de 2 dias de gestação, fui me deitar e tentar fazer meu bebê de 1 ano e 7 meses dormir – ele estava agitadíssimo. Numa das suas milhões de conversinhas, ele deu um super tapa na minha barriga e falou “abre”, como que dizendo que tava na hora dela sair dali. Ele dormiu e meia hora depois (1h da manhã) minha bolsa rompeu. Senti o líquido escorrendo na calcinha e mal podia acreditar! Estava felicíssima!! Esperei as contrações começarem, tentei dormir, mas aos poucos elas foram chegando, chegando, cada vez mais ritmadas e mais intensas. Ás 4h da manhã já sentia que precisava de ajuda. Como estava tudo planejado para um parto domiciliar, chamei minha doula Thaiane Caetano e as parteiras (que moram em Campinas) Camila e Adriana. Acordei o marido e começou aquele movimento dentro de casa.

Simplesmente TODA a minha família estava hospedada em casa – dois irmãos e uma irmã com seus respectivos maridos e esposas, crianças e meu pai) e estava muito preocupada pois não estava certa de como eles reagiriam ao processo do trabalho de parto, mas resolvi apostar que daria certo.

Logo que minha doula chegou eu já estava no chuveiro sentindo as contrações ficarem mais fortes. Ela trazia com ela a banheira de parto e todos da família começaram a ajudar a encher a banheira, esquentando água, e carregando as panelas de água, igual antigamente! Enquanto isso, na minha banheira de casa eu tentava relaxar, mas já sentia uma dor na lombar bem forte. Thaiane preparou o banheiro com velas, e massageava minhas costas, enquanto cantava algumas canções. Fui afundando cada vez mais, entrando na partolândia, perdendo os sentidos, a noção da hora e o controle da situação. Momento mágico esse!

Logo fui para a banheira de parto, já com dores muito intensas. Meu marido ficou o tempo todo na borda da piscina acocorado, e a cada contrações era nele que eu me apoiava, segurando sua mão com toda força, e entre as contrações, a Thaiane massageava minha lombar. Logo as parteiras chegaram, assim como a Alessandra Santana, que fez o registro fotográfico do momento de forma super discreta e sensível. A dor foi ficando muito, muito forte, a ponto de eu pedir analgesia 3 vezes (mas eu havia escrito no meu plano de parto que era para ignorarem todos os meus pedidos de analgesia e assim foi feito! kkkk).

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Interessante como no processo a gente perde o pudor, a vergonha e vira bicho. Eu estava completamente nua, e me acocorava, me ajoelhava, totalmente exposta mas me sentia completamente a vontade, e entregue ao momento. Dai a importância de estar em um ambiente acolhedor e cercada de pessoas que possa de fato confiar. Acho que não conseguiria me entregar da forma como me entreguei se estivesse em um quarto de hospital.

Estava cansada pela noite sem dormir e com muita, muita dor. Nesta hora, as parteiras me sugeriram deitar na cama e dormir (pasmem!) entre as contrações. E foi exatamente isso que eu fiz, eu dormi, eu sonhei, eu ronquei entre uma contração e outra!! Estava complatamente fora de mim, do meu controle racional, eu só fazia força na contração e descansava entre uma e outra.

Passado um tempo, a Camila (parteira) me sugeriu fazer um toque para avaliar como estava o andamento das coisas, e para minha surpresa, a cabecinha estava lá embaixo, só faltava parir! Nesta hora, eu mesma me toquei e senti Bianca lá no períneo e isso me encheu de uma energia maravilhosa! Me levantei como uma leoa e resolvi que ia parir! Escolhi sentar na banqueta de parto e foi ali que fiz as derradeiras forças, gritando com todo o meu pulmão; acompanhando tudo com um espelhinho, fui vendo Bianca abaular meu períneo, distender toda a vulva e finalmente sair e ir direto para meus braços! Meu Deus, emoção maior não há!!! Que cena linda, recebê-la diretamente para meu colo, uma bebezona linda, rosa, chorando, foi algo que jamais vou esquecer. E toda dor acabou ali, e foi só alegria e sorrisos!! Minha família vibrava do lado de fora do quarto, quando ouviram o último grito e o chorinho dela, foi uma festa geral!!! A Família Aguiar toda regozijando!

Minha princesa nasceu com 3540g, 49 centímetros e Apgar 10/10. É vermelhinha, parece uma pitanga! Olhos castanhos bem escuros, a cara do pai e do irmãozinho!

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Depois do parto, me deitei em minha cama para a expulsão da placenta e a revisão do canal de parto. Bianca mamava com uma pega perfeita, e muita vontade de sugar! Uma criança pronta para vir a mundo! O pai corta o cordão umbilical e Bianca assume assim sua própria vida. E ai acontece uma cena linda de viver: Rodriguinho chega no colo do pai, é apresentado a irmã e ele pergunta: “neném?” Sim, meu filho, é a Bianca, o seu tão aguardado neném!! E ele fica ali, examinando a irmã, tocando com as pontinhas dos dedos sua cabecinha, barriguinha, nariz, orelhinha….. coisa mais linda esse reconhecimento! Foi muito emocionante presenciar tudo isso.

Depois que as parteiras acabaram de dar alguns pontos em algumas lacerações superficiais, pude ficar deitada na cama, amamentando e recebendo meus irmãos, cunhados e meu pai para conhecer a pequena. Que coisa boa poder estar em casa nesse momento! No conforto do meu quarto! As parteiras iam arrumando toda a bagunça, enquanto comia um misto quente com suco de laranja.

Logo depois me levantei, tomei um banho gostoso, me arrumei, ajudada pelas parteiras, que são muito mais que profissionais, são pessoas humanas que não têm vergonha de te ajudar a vestir uma calcinha ou uma roupa. E assim, toda arrumadinha, pude almoçar a comidinha da minha funcionária Lu enquanto amamentava minha pequena sentada na minha cama. Tudo muito simples e natural!

Não tenho palavras pra descrever o quanto esse momento foi especial para mim, e o quanto valeu a pena me informar, me empoderar, lutar contra o sistema e as críticas dos colegas e de tantas outras pessoas, mas NÓS CONSEGUIMOS!!! Conseguimos porque nosso corpo foi feito para isso, basta acreditar!

Uma semana depois, olho para trás e penso que faria tudo de novo, viveria toda aquela dor de novo, passaria por tudo de novo. Foi lindo! Sou outra pessoa, uma mulher e mãe muito mais forte. Foi a experiência da minha vida que mais me trouxe crescimento.

Minha luta agora será maior ainda, para que toda mulher tenha direito de parir assim, com respeito e dignidade, com segurança e aconchego, e que todo bebê possa vir ao mundo acreditando que aqui é um bom lugar para se viver.

Beijos,

Flávia

Eu pedi para compartilhar essa história aqui no blog e a Flávia autorizou. Ela tem um site sobre maternidade ativa e consciente. Conheça: Gravidinhas e Mãezinhas.

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